segunda-feira, 6 de abril de 2015

Em torno do verso: uma leitura do Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, a partir do que dizem seus paratextos - Stéphanie Paes



Em torno do verso: uma leitura do Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, a partir do que dizem seus paratextos
Stéphanie Paes



O texto não tem existência autônoma, ele “é composto por um mundo que ainda há de ser identificado e que é esboçado de modo a incitar o leitor a imaginá-lo e, por fim, a interpretá-lo.”  É no e pelo ato de leitura que o arranjo proposto pelo autor se converte em sentido(s).

Entretanto, quando abrigado em um livro, não é apenas o texto do autor – a sequência de períodos, parágrafos, versos e estrofes que engendra, que aqui identificarei por texto autoral – que fornece ao leitor elementos para a construção de seu(s) sentido(s). “Um certo número de produções, verbais ou não” cerca o texto autoral “para apresentá-lo, [...] para torná-lo presente, para garantir sua presença no mundo, sua ‘recepção’”.  Essas produções, às quais Gerard Genette dá o nome de paratextos, produzem “uma ação sobre o público, a serviço [...] de uma melhor acolhida do texto [autoral] e de uma leitura mais pertinente [...] aos olhos do autor e seus aliados”;  e assim orientam, em certa medida, o processo de produção dos sentidos da obra. São títulos, ilustrações, capa, nome do autor, prefácio, posfácio, epígrafe, enfim, toda a informação que se encontra na periferia do texto autoral. 

Com base nessas premissas, expõe-se uma leitura da obra Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, em edição de 2006 do Editorial Minerva, de Lisboa.
 


Percurso de leitura
O contato mais imediato com a antologia de poemas Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, já é bastante revelador do teor dos textos que se encontrará durante a leitura. Na capa da obra, título e ilustração disputam a atenção de quem a pega para ler e introduz um cenário de conflito, ou melhor, de crise.

Na parte superior da capa, logo abaixo do nome do autor – inscrito em letras capitais de corpo pequeno e cor preta, de uma fonte não serifada e delgada, o que lhe confere bastante suavidade – encontra-se o título Mestiço de corpo inteiro sobre um plano de fundo liso em tom de amarelo bem claro, no qual repousam todos os demais elementos da capa (nome do autor, ilustração, logotipo e nome da editora). Também inteiramente em letras maiúsculas, em uma fonte serifada ligeiramente robusta pela aplicação de negrito, o nome da obra, que à exceção da preposição de figura toda com corpo de mesmo tamanho, aparece em um tom de azul ligeiramente escuro e bem suave.

É significativo observar que as cores utilizadas para o fundo da capa e o título da obra são complementares, ou seja, opostas, altamente contrastantes. Colocá-las lado a lado produz um efeito harmônico que ao mesmo tempo contém uma tensão, pela oposição das cores. Este mesmo efeito será reproduzido na imagem da capa, da qual se falará adiante. Passando do aspecto formal para o discursivo, tem-se no título da obra a figura do mestiço, um indivíduo fruto da mistura de raças, que, ao afirmar-se “mestiço de corpo inteiro” aponta para sua identificação total com esta condição, um sujeito integralmente miscigenado em sua percepção de si mesmo, uma mistura perfeita e total de diferenças.

Em contrapartida, visualizando-se a pintura de David Levy Lima que ilustra a capa (e, por extensão, a essência do livro, assim como o título resume a essência da mensagem que se propõe passar através dele), percebe-se a figura de um mestiço, por seus traços característicos, que, em oposição ao dito no título, aparece cindido por um efeito de sombra: o lado direito, iluminado e, portanto, mais claro, e o lado esquerdo, enegrecido pela sombra. A projeção dessa sombra produz um sujeito divido, bipartido, situação que associada à sua condição de mestiço, pode-se interpretar como a cisão dos elementos que geram esta mestiçagem (elementos negro e branco, no caso) e a irreconciliabilidade dessas duas metades que formam o sujeito em questão, ainda que a cisão não seja total, uma vez que as partes se interpenetram em certa medida. O emprego de cores complementares na composição da imagem (tons de amarelo, laranja e azul) contribuem para o efeito de oposição.

Ainda, o confronto da imagem com o título contribui para este efeito de contraste: um sujeito que se afirma mestiço em sua integralidade e um que não consegue estabelecer esta fusão, indicando, possivelmente, que este sujeito vive o conflito entre se afirmar mestiço e a impossibilidade de fazê-lo efetivamente. O uso de uma sombra para estabelecer a divisão na imagem e o aspecto aparentemente melancólico do sujeito retratado reforçam esta crise. Mas o que a provocaria? O que impediria este indivíduo de viver sua mestiçagem em sua plenitude?

Ainda que o sumário não seja de leitura obrigatória e costume ser consultado apenas quando se precisa encontrar um ponto específico do texto, é relevante analisar o desta obra de Delmar Maia Gonçalves, pois ele apresenta características peculiares. Assim como os títulos dos poemas e de outras produções pré e pós-textuais que se costuma ver em sumários, embora com variações de obra a obra (prefácio, biografia, posfácio...), figuram no sumário de Mestiço de corpo inteiro, e em mesmo nível hierárquico dos poemas, as epígrafes, identificadas como “citações”, e as ilustrações de Isabel Carreira e Filipa Gonçalves. Pode-se supor, a partir da observância desse fato, que essas produções paratextuais têm o mesmo peso dos poemas para a leitura do livro, isto é, elas significam tanto quanto os versos.

Após alguns pré-textuais que não serão abordados aqui, encontram-se as epígrafes, 10 no total, duas do próprio autor. O conteúdo dessas epígrafes (salvo a segunda, que parece uma análise crítica, possivelmente da poética do artista) parece demonstrar posturas ideológicas e/ou reflexões filosóficas sobre temas como a existência, o pertencimento, as relações humanas e a mestiçagem. “Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar e falar quando é preciso calar-se” (provérbio persa) e “a alma multiculturalista, espiritualmente superior, acabará por fazer entender todos os homens e nações” (Kumarka Prakhasmani) são duas delas. É ainda significativo observar as diversas origens desses discursos: um provérbio persa, versos de poetas de culturas e origens diversas, citações de um cientista, de um sociólogo, enfim, discursos de vários cantos do mundo, ocidentais e orientais, congregados num mesmo espaço, como no intuito de celebrar, através dessa seleção, o multiculturalismo defendido por Prakhasmani.

Uma das funções da epígrafe consiste em traçar “um comentário do texto [autoral], cujo significado ela precisa ou ressalta indiretamente.”  Considerando-se as impressões provocadas pela capa, lê-se a sequência de epígrafes do livro como prenúncio do que se encontrará ao se avançar na leitura, como sugere a citação da jornalista Rita Pablo: “uma vontade gritante de dar sentido à mestiçagem”. Não demorará muito para que esta suspeita seja confirmada pelos poemas.

Ainda que trate de outras temáticas, como a mulher, a “mátria” Moçambique, a ancestralidade e mesmo a escravidão, a questão central do livro Mestiço de corpo inteiro é o conflito de um homem com sua condição de mestiço, a busca por encontrar o seu lugar, seu pertencimento em um mundo de grupos tão bem definidos: “Não sabia que/ para me reivindicar/ de um berço/ tinha de ter/ uma certa cor/ convencionada/ pelos homens.” 

O primeiro poema do livro introduz poeticamente sua situação de instabilidade identitária. O eu-lírico, classificando-se como “Náufrago africano”, título do poema, declara: “Sou um náufrago/ em busca/ de porto seguro”.  O náufrago é um indivíduo que não chegou em terra firme, que se encontra à deriva. Sendo a terra um signo de pertencimento, de enraizamento, estar à deriva é não pertencer a lugar algum. A brevidade do poema e mesmo dos versos individualmente, associado ao seu conteúdo, produzem um tom de desabafo melancólico de um homem que procura seu lugar. Quando se coloca em diálogo este poema com a epígrafe de Séneca, “quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável”, pode-se apreender que a busca deste homem por seu pertencimento deve ser interior, que quando encontrá-lo dentro de si as condições de sua inclusão no grupo se tornarão favoráveis. Será?

O que se observa ao se avançar pela obra de Delmar Maia Gonçalves é a árdua luta de um sujeito para unificar a multiplicidade que constitui a sua mestiçagem, a fim de apaziguar as polaridades que o impedem de se constituir em ser integral, em mestiço de corpo inteiro.

Nesse sentido a imagem, de Isabel Carreira que se encontra na página 19 é emblemática. Nela, os contornos de dois indivíduos idênticos, um negro e um branco, se olham e se dão as mãos. Em contrapartida, seus pés estão voltados para trás. Percebe-se por esta imagem a irreconciliabilidade dos elementos negro e branco na formação identitária do indivíduo, que se esforça para unir os dois elementos (mãos dadas), mas se depara com a recusa desses elementos em se mesclarem (pés voltados para trás). A imagem pode conotar também a tentativa de promover a igualdade entre opostos, defendida em alguns poemas.

A busca por se constituir “mestiço de corpo inteiro” se dá, nos poemas do escritor moçambicano, em dois movimentos principais e conflitantes, ainda que cheios de nuances, como acontece em toda grande questão humana: por um lado, o eu-lírico afirma sua mestiçagem, lutando pela mútua compreensão entre os diversos povos do mundo e pela aceitação de negros e brancos de sua condição de mestiço; por outro, vive a crise identitária de ser mestiço, de não poder escolher um lado e, portanto, não pertencer a nenhum. Ao mesmo tempo em que se defende enquanto “mestiço de corpo inteiro”, frase dita não só no título como em mais de um poema,  sente-se incomodado com a sua condição e questiona com frequência sua identidade. Entretanto, respondendo à questão feita acima quanto a se a descoberta de seu pertencimento dependeria de um esforço interior do indivíduo, o que se percebe na poesia de Delmar Maia Gonçalves é que a sensação de deslocamento sentida por seu eu-lírico seria mais fruto das pressões dos grupos circundantes para que este “escolha um lado”, que, evidentemente, ele não pode escolher, da rejeição dos outros da sua condição de mestiço do que propriamente por uma falta por parte do eu-lírico de aceitar a si mesmo. Ele, enquanto “mestiço de corpo inteiro”, mistura integral de etnias e culturas, não pode pertencer se o mundo estiver cindido e reivindicar essa cisão.

Ainda que não haja uma divisão explícita entre os dois movimentos principais do eu-lírico no livro, é perceptível uma concentração, em sua primeira parte, de poemas que defendam e exaltem a mestiçagem. Em “And I am who I am”, primeiro poema que trata explicitamente da questão da mestiçagem, o eu-lírico se declara mais do que híbrido de branco e negro (“hybrid from black and white”), talvez um indivíduo regido pela lei dos opostos (“Perhaps I am ruled by/ The law of oposites”) ou uma simbiose de antíteses (“a symbiosis of antithesis”).  Ainda que o autor afirme a sua individualidade, o emprego de um advérbio de dúvida (talvez) aponta para a busca, empreendida pela voz do poema, por se definir enquanto indivíduo. Espelhado a este poema encontra-se “L’énigme”, que já traz o índice da dúvida em seu título. No poema o autor denuncia o olhar enviesado do outro para si (“Je suis un noir pour les blancs/ Et blanc pour les noirs”) , mas se defende dizendo ser apenas um mestiço, uma adição de negro e branco (“Je sais seulement qui je suis un métis/ [...] Une addition de noir et blanc”. 

Curioso perceber que há poemas em três línguas no livro de Delmar Maia Gonçalves. Essa opção descentraliza o discurso e sugere uma universalidade da questão da mestiçagem, e ainda ajuda a reforçar a hibridização do eu-lírico, que escreve para o seu Eu “que é vários Eus”,  se quisermos pensar na voz do livro como sendo una. Mais ao final do livro leem-se as versões em português desses dois poemas: “E eu sou eu”, página 62, acompanhado do retrato de um mestiço, e “O enigma”, na página 71.

Em “O inevitável”, defende-se de acusações afirmando não ter culpa de “ter nascido mulato”, de ser “fruto do pecado de um amor proibido”.  “Mulato sou, mulato serei!”,  conclui ele; afinal, como lembra em “Dança ancestral da alma”, não pode renunciar a sua ancestralidade: “porque não posso jamais renegar um pouco que seja dos meus glóbulos/ sanguíneos negróides e caucasoides”. 

Na página 6, um desenho de Filipa Gonçalves ilustra bem a força dessa herança. Nela vê-se o que parece ser uma cabeça de tripla face: ao centro, meio rosto de um mestiço; no lado esquerdo, o perfil do rosto de um negro; à direita, o perfil de um rosto branco. Observa-se ainda, semifundido entre o rosto negro e o mestiço um berimbau, e entre este segundo rosto e o branco, um violino, talvez apresentando o elemento cultural como importante mantenedor dos vínculos do mestiço com sua ancestralidade.

Em um segundo momento da obra tornam-se mais recorrentes os poemas que abordam o conflito de ser mestiço, tanto no que diz respeito à não aceitação desses sujeitos por parte dos grupos étnicos que dão origem à mistura, quanto ao conflito identitário que sofrem esses sujeitos como consequência dessa rejeição.

Em “Zé Pecado e o dueto preto e branco”, o eu-lírico, que tem em sua pele e em seu nome (sua identidade) a marca do “pecado de um amor proibido” de que fala a voz de “O inevitável”,  tenta se aproximar dos negros e é rechaçado: “— Sai daqui seu misto sem bandeira!”  Tenta, então, estabelecer relações com os brancos, mas recebe o mesmo tratamento: “— Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!”  Jamusse, no poema que leva o seu nome, tenta fazer o mesmo movimento, e também é rejeitado: “Vozes de Brancos e Negros/ vozes de raiva e ódio/ Gritos coléricos surgiram/ Vai-te embora misto aborrecido!/ Vai-te embora misto sem bandeira!/ Vai-te embora preto!/ Vai para a tua Terra!”  Mas qual seria a sua Terra?

A ilustração de Filipa Gonçalves que se encontra à página 45 do livro é icônica desse processo de rejeição. Ao centro se observa a imagem de um mestiço com feição séria, em traços bem realistas; à direita, rostos brancos, em traços menos realistas, olham para o mestiço com feições desfiguradas de ódio e reprovação, com feições que se assemelham a carrancas; à esquerda, rostos traçados com mesmo estilo, porém negros, também se voltam para o mestiço com expressões furiosas. A imagem demonstra bem a rejeição sofrida por um mestiço pelos membros das raças que fazem parte da sua constituição ante a impossibilidade de tal indivíduo escolher um lado e, consequentemente, integrar um desses grupos.

Sem conseguir encontrar o seu lugar de pertencimento, desabafa em “Mestiço”: “Que condição/ esta de ser o/ que sou...!/ Para ser africano pleno/ tenho de admitir ser/ o que não sou/ Para ser europeu de corpo/ inteiro/ tenho de fingir e/ procurar ser o que/ não sou.”  “Não há drama maior/ que viver com a tristeza/ da rejeição”, arremata em “O mestiço”. 

É imperativo que se escolha um lado. É impossível escolher um lado. Diante deste dilema insolúvel, uma das saídas do eu-lírico é ironizar a situação a que os outros o submetem: “Que sociedade teria/ espaço para um banido?/ [...] E por isso vos peço, por favor/ brancos e negros!/ Decretem o fim dos mestiços/ Promulguem e aprovem a lei/ anti-mestiçagem!/ Mas céus! Não sem antes/ exterminarem os seus criadores!” 

Mas esse gesto crítico não é suficiente para resolver sua crise identitária. Procura, então, encontrar sua identidade na pátria, grupo do qual pode pertencer à despeito de sua cor: “Na minha Pátria/ não há pretos nem brancos/ há Moçambicanos.// Na minha Pátria/ não há mestiços/ há Moçambicanos.// [...] E Moçambicano/ é aquele que/ sente o pulsar da/ pátria,/ Moçambicano/ é aquele que a vive.”  O fato de escrever moçambicano e pátria com iniciais maiúsculas, enquanto os outros grupos (pretos, brancos, mestiços...) têm seus nomes grafados com inicial minúscula denota a superioridade da pátria e da “moçambiquedade” sobre os segmentos étnicos.

Entretanto, em poemas seguintes, o conflito identitário do eu-lírico reaparece, e ele percebe inclusive que sua “africanidade” e “moçambiquedade” teriam de ser defendidas, não dos brancos, não dos negros, mas dos povos de outras nações, possivelmente de outras nações lusófonas, e conclui: “Ninguém compreende/ Minha singularidade”. 

Tenta, então, uma última cartada, defendida na epígrafe de Kumarka Prakhasmani, qual seja, a multiculturalidade: “Não nos podemos dividir mais,/ porque somos resultado/ da multiplicação/ que resulta em humanidade”, reflete em “Mestiçagem”.  E afirma no poema que dá título ao livro: “Sou mestiço sim/ mestiço de corpo inteiro/ mestiço no espírito e na carne/ mestiço das Áfricas, das Américas,/ da Ásia, da Oceania, mestiço das Europas/ mestiço do mundo, mestiço do mundo inteiro”. 

De qualquer forma, embora a crença na multiculturalidade possa resolver sua relação consigo mesmo, sua crise identitária não fica de todo sanada, permanecendo em suspenso o dilema do seu pertencimento, em uma terra onde “os homens/ se excluem/ conforme as conveniências.”  Permanece, assim, o eu-lírico à deriva, “em busca de porto seguro”... 
Antes de fechar o livro...

O texto forjado por um autor é um esboço de “um mundo que ainda há de ser identificado”,  imaginado e interpretado por outra instância, o leitor, a quem cabe a decisão de concluir a tarefa ou deixá-la em aberto. 

Quando se trata de um mundo encerrado em um livro, gira em torno dele uma série de produções textuais, verbais ou não, que interferem no jogo entre o autor e o leitor, fornecendo a esse último elemento que, tendo ele consciência ou não, o ajudarão a dar os retoques finais na obra rascunhada pelo autor: são os paratextos, segundo termo cunhado por Gerard Genette.

Em Mestiço de corpo inteiro, os paratextos que circundam os versos de Delmar Maia Gonçalves, desde a capa às ilustrações internas, estão engajados em criar o clima de tensão que ecoa nos poemas. Do jogo de oposição de cores e discursos da capa, passamos para uma lista de epígrafes com teor ideológico que prenunciam as teses que serão defendidas pelo(s) eu-lírico(s) dos textos poéticos. As ilustrações reproduzem, em outra linguagem, a crise identitária vivenciada pelo(s) mestiço(s) que fala(m) na obra. Por fim, embora fora da ordem de sua recepção, o título da obra e também os de vários poemas (“Mestiço”/”Metisse”, “Mestiçagem”, “Ser mestiço é...”, entre outros) centram a temática da obra na questão da mestiçagem.

Todos esses elementos direcionam a leitura para um caminho, que talvez confirme, ou amplie, ou reduza as possibilidades de leitura que o texto sozinho incitaria. Qual seria a recepção dos poemas se eles estivessem livres de todo esse aparato? Esta também é uma questão insolúvel, uma vez que já se teve contato com os paratextos da obra. Esses instrumentos podem até limitar as possibilidades de leitura, mas certamente não as encerram. Há ainda textos outros, extralivro, que dizem respeito a cada leitor, e a um mesmo leitor em momentos distintos, que fazem válida a premissa: “há tantas leituras quantos são os leitores”.  Esta aqui é apenas uma.





Referências

Textos teóricos

GENETTE, Gérard. As epígrafes. In: ______. Paratextos editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. p. 131-144. (Artes do Livro, 7)

GENETTE, Gérard. Introdução. In: ______. Paratextos editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. p. 9-20. (Artes do Livro, 7)

ISER, Wolfgang. O jogo do texto. In: LIMA, Luiz Costa (Org.). A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. p. 105-118.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Primeiros Passos)




Textos literários

GONÇALVES, Delmar Maia. And I am who I am. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 22.

GONÇALVES, Delmar Maia. Dança ancestral da alma. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 29.

GONÇALVES, Delmar Maia. Jamusse. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 60.

GONÇALVES, Delmar Maia. L’énigme. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 23.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiçagem. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 49.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiço de corpo inteiro. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 61.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 59.

GONÇALVES, Delmar Maia. Moçambique moçambicano. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 75.

GONÇALVES, Delmar Maia. Monólogo de um mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 43.

GONÇALVES, Delmar Maia. Náufrago africano. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 17.

GONÇALVES, Delmar Maia. O berço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 76.

GONÇALVES, Delmar Maia. O enigma. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 71.

GONÇALVES, Delmar Maia. O inevitável. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 26.

GONÇALVES, Delmar Maia. O mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 47.

GONÇALVES, Delmar Maia. Singularidade africana. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 83.

GONÇALVES, Delmar Maia. Zé pecado e o dueto preto e branco. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 55.

terça-feira, 29 de abril de 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

De Lisboa a Famalicão: O baptismo do Perdedor da Distância Incerta ao Ponto Certo

S

exta-feira acordo embriagado pela beleza das noites Lisboetas que não me largaram a beira do Sagres. 
Antes de me levantar vejo a Francisca ( a gata) encostada a almofada que desfilava no lugar onde dormia e eu nem tomei conta da sua presença, dei um abraço na gata a boa maneira que a Maria me ensinara, ela continua a olhar-me com desconfiança, deixo-a e levanto-me em direcção ao relógio pergunto-o as horas e ele respondeu-me:
- São seis da manhã 
Levantei-me a passos de camaleão, iniciei a minha digressão pelas coisas que me pertencem, preparei a mala, os livros nas devidas sacolas e os documentos nos seus concretos espaços de repente apercebi-me que tinha o bilhete do voo em falta. Acordo a Maria que de forma leve e tardia liberta-se da cama pois o sono já tomava conta do seu mar alentejano, eu convidei-a a mergulhar no mar da minha inquietação.
Amosse tenta lembrar-se onde deixou o bilhete enquanto procuramos nos livros- retorquiu a Maria
A mesma altura eu regava com lágrimas de dor a cheirarem-me o exílio pelos tantos cantos daquela casa. E ela disse:
-será que não esqueceste na pensão onde dormiste no primeiro dia?
As palavras me fugiam como um navio de pesca em plena castração no mar, o coração batia forte e melancólico como as águas turvas de um tsunami. O silêncio não me largava, o relógio corria a uma velocidade cósmica tipo um gato em brasas, 9 horas diz ele a rir-se de mim, olho-o com uma voz nostálgica pego no celular penso em ligar para Maputo a Maria intersecta-me diz:
-Não precisa Amosse esta tudo bem com a sua avó o que tens que fazer é ligar para o Delmar e outro amigo da embaixada para te levarem a pensão para ires procurar o bilhete.
Como sempre a voz da mulher é a voz do comando, liguei para o Paradona combinamos o ponto de encontro nas Amoreiras, sai da casa (Maria) a caminho da paragem do mesmo nome, minutos depois chega o Paradona exponho a minha preocupação .
E ele disse não tem problemas vamos a TAP resolve-se este caso. Fiquei sossegado saímos em direcção ao aeroporto, o celular toca toca Delmar diz:
-estou na embaixada a vossa espera com uma actriz brasileira.
-Dentro de 5 minutos chegamos ao vosso encontro, respondeu Paradona
saimos a moda da fórmula 1 que se conduz em Portugal despertamos na ponte em direcção a Setúbal. estamos perdidos para voltar temos que atravessar a ponte e voltar de novo na rotunda da Costa da Caparica -disse Paradona.
Este era o prenúncio de um festival de perdidas que o dia esperava nos presentear. Chegamos a embaixada encontramo-los bem cansados de tanto esperar e bem sossegados de tanto conversar fez-se a divisão tal como deus fez quando dividiu o céu e o mar a bela actriz brasileira que passou a responder por Vera Barbosa entrou no carro onde eu estava com Paradona, o maestro do Núcleo Tenaz Jorge Viegas, Delmar Gonçalves e a esposa ficaram noutro carro e saímos escoltando-nos em direcção ao aeroporto, ali resolveu-se o problema do bilhete a troco de 40 Euros Paradonianos.
São 12 horas a viagem a Vila Nova de Famalicão é longa os dois condutores trocam os mapas e o Delmar disse vamos pela via Torres Vedras em direcção a Porto isto na A25 e desviaremos  na A3 sentido Porto- Braga.

Embalamo-nos na estrada de olhos bem abertos nas instruções da voz que falava verdades, o caminho é sempre a frente até encontrarmos a rota do desvio para Braga, o motor roncou com os pés rentes a estrada que nos namorava a 30 minutos do ponto de partida, a viagem teria a duração de 3h e 30minutos.mas devido ao mapa errado dado pela pessoa certa, prosseguimos felizes ao som da voz da Vera Barbosa ali falamos de tudo( teatro, literatura, cinema e mais) e de todos( Saramago, Jorge Amado, Craveirinha) antes de chegar a Aveiro o Delmar liga a perguntar sobre o nosso paradeiro
-estamos a passar a Aveiro- respondi, era uma pura mentira que o celular as vezes nos induz, decidimos parar nas bombas a 5 km de Aveiro, pois ja estava tudo quente precisávamos de uma água ali nos reencontramos, e confirmou-se que estávamos no caminho certo, dividimo-nos tal como deus nos ensinou.
A viagem continuo firme nos nossos ideias comunistas que diziam- chegaremos a Famalicão as 15 horas. puro sonho irrealizável, dai perdemo-nos um do outro, continuamos abraçados a estrada na esperança de chegar beijar a cidade que nos espera a séculos ,os poemas abertos nas mesas para as nossas bocas aprovarem e os poetas antropófagos que desejam comer as experiências dos poetas moçambicanos.
As horas em nenhum momento perdoaram-nos e a distância chamava por nós seduzindo-nos com a sua nudez alcatroada de mel e os seus olhos pedregosos de vinhas  de sabores milenares.
Passamos  o cruzamento do Porto esperançados no próspero encontro do desvio Braga, chamamos o Delmar telefonicamente e disse estão no caminho certo é para frente que se vai a Famalicão. Depois da fala a Vera e o Paradona colaram algumas interrogações no tecto que nos cobria pois ela cheirava o perfume de Viseu. Continuamos a andar em direcção a fronteira com Espanha (Viseu).
As horas transbordavam de forma violenta no nosso rio das incertezas, 17 horas ainda a bordo desta amável estrada e em Famalicão iniciavam as RAIAS DOS RAIOS DA POETICA.
Oh Paradona o primeiro desvio que encontrarmos vamos voltar para Coimbra e lá encontraremos o caminho para Porto- disse a Vera, estávamos em Tondela, ligamos para o Delmar - ele confirmou que já tinha chegado a Famalicão e já tinha informado a todos convidados que os poetas moçambicanos e a actriz brasileira estavam perdidos. Tomamos a estrada em direcção a Coimbra cansados de beijar a mesma boca da A25 e por fim encontramos a A3 com a placa Porto ai nos sentimos em casa acordamos do tédio que nos acompanhava continuamos a esculpir a conversa que a 1 hora o silêncio tinha a tomado de assalto.
E por fim as 19h chegamos a Famalicão ali reencontramos velhos e novos amigos Abreu Paxe João Maimona (Angola), Luís Serguilhas, Maria João Cantinho, Luisa Demétrio Raposo, Jorge Velhote, Jorge Melicías Aurelino Costa, José Ilidio Torres, Inês Leitão, Marilía Lopes, Aurora Gaia, Luisa Monteiro ( Portugal), Laercio Correntina, Manaíra Aires Athayde, Cláudia Carvalho Machado ( Brasil) Alberte Momán, Ramiro Vidal Alvarinho, Verónica Martínez Delgado Carlos Quiroga, Javier Diaz (Espanha), e outros que a palavra sempre nos aproxim(ou)a deles. este era o baptismo das  Primeiras Raias Poéticas das Afluentes Ibero-Afro-Americanos na Vila Nova de Famalicão, bem haja.
Amosse Mucavele
1.12.12 Hotel Moutados
Quarto 404,  02 horas:50 minutos
Vila Nova de Famalicão

domingo, 9 de março de 2014

World Art Games


"ENTRE DOIS RIOS COM MARGENS" por MARIA DOVIGO

O VELHO IMBONDEIRO OU A LIGAÇÃO DA HUMANIDADE EM TRÂNSITO
(NOTAS A "ENTRE DOIS RIOS COM MARGENS")
Não desligo o labor poético do entendimento do humano concreto e da vontade de fazer o bem. Assim, o livro do Delmar Maia Gonçalves, Entre dois rios com margens, é exemplo de um sincero contributo do poeta exilado para o esforço coletivo da emancipação da humanidade em trânsito, em que o poeta “se revela na generosidade com que se dá aos outros”.
O fio narrativo do conjunto dos poemas é o homem que se exilia da sua terra devastada para procurar nos longes a salvação da terra da infância, o tempo que “é o centro crucial do furacão da vida”. Como nos contos de tradição oral, o herói parte para compensar uma perda, a perda da harmonia, do canto, da paz. O poeta canta “sobre as cinzas”, com uma linguagem fragmentada, caótica, expressão da perda da harmonia. A viagem é uma religação com a raíz, um “imigro de mim para mim mesmo”, a procura do centro perdido, um pedaço na “esfera do caos”.
É na viagem deste herói poeta que se juntam as esperanças da coletividade. O poeta é a esperança no retorno da harmonia, o que procura “o fio da palavra vital”. Em ele resistem as memórias da língua dos pássaros, ele porta consigo a memória das árvores milenares, do velho imbondeiro africano, o irmão da lua,  que com ele faz a viagem do mundo. Ele é o intérprete da grande voz cósmica, isto é, ordenadora, que se ouve nas conchas. Ele, o poeta exilado, o poeta em trânsito, pensa em movimento, como as “ondas do mar”. Procura incessante a esperança, esse momento em que ao seu “país as aves regress[em], e com elas a alegria, a paz, a vida e os poetas”. Esse pensamento que, como o vento, “sopra violento”, percorre dualidades, “de mim para mim”, entre “dois rios com margens”, entre o silêncio e as vozes, os “silêncios que falam”, “o murmúrio dos novos tempos”. A “solidão plural do berço umbilical” é “bálsamo revigorante” do poeta que vê “os caminhos se encurtarem e as portas se fecharem”. Este passo entre a dualidade e a identificação, é o primeiro movimento do pensamento para conseguir a ligação e dar sentido à dor da fragmentação, essa dor que o poeta quer “exorcizar” com a escrita. Assim se afirma o poeta exilado como aquele vai buscar a luz da aurora, a vida e a esperança, o “despertar” para a coletividade.
Pela lei da isomorfia da imaginação humana, o poeta consegue a síntese em que se identificam as duas margens do rio, a superação dessa primeira barreira para a comunicação que faz uno o percurso do viajante e do poeta. A viagem poética revela que a paz, a abundância e o canto são três palavras para a harmonia única do humano, a expressão da vida renovada, vida material, vida anímica, vida sonhada, na primavera esperada da língua e da comunidade.
De entre todas as imagens de esperança, nenhuma tão forte como a da árvore, a “força integradora do mundo”, em expressão do crítico Gaston Bachelard, os velhos imbondeiros africanos que “repousam” no poeta. Por aparente paradoxo, a raiz da árvore é ligação à terra mãe e nó de ligações que reúne todos os caminhos do mundo. A voz cósmica das árvores, tão conhecida pela tradição poética da minha Galiza natal, a voz das “longínquas avós das carvalheiras” do poeta galego Celso Emílio Ferreiro ou dos pinheiros, arautos da redenção da terra escrava, do poeta Eduardo Pondal. Assim é o imbondeiro, que liga o sagrado, o poético e o histórico, o humano e o natural. O imbondeiro ressequido do poema “África”, imagem da devastação da pátria, tão semelhante à do carvalho abatido do poema de Rosalia de Castro “Os carvalhos”. O imbondeiro irmão da lua, como os pinheiros que com o luar dialogam no poema que deu origem ao hino galego, a lua que banha “a esperança adormecida” do poeta.
Encontram os poetas a universalidade da imaginação, esse “céu invisível”, na diversidade material da vida que liga o natural e o humano. Encontra assim o poeta sentido à sua própria viagem de exílio, à afirmação da liberdade da criação do “nómada e pássaro livre em voo rasante”, como se identifica no poema “Eu sou eu II”. O repouso já não está no espaço físico exterior, uma das margens do rio, mas no espaço linguístico interior, a outra margem, o espaço da língua recriado no poema “Trabalho da língua”, que dá a dimensão da humanidade e do labor do poeta que não distingue o individual e o coletivo, essa solidão plural que descobre a identidade do poeta errante em ser “a voz destemida dos sem voz”, algumas das muitas dualidades que identificam este livro de poemas. A língua que se liga aos ritmos vitais da natureza, ao rio que tudo e todos une, encontra o seu renascer nos versos de Delmar Maia Gonçalves.

Maria Dovigo



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Grandes nomes que zelam pela língua Portuguesa ingressarão no Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa em Março de 2014


Está confirmada! A Posse do Núcleo de Letras e Artes de Lisboa, receberá grandes nomes não só de Portugal mas, também dos países lusófonos para Noite de Outorgas no dia 28 de março em Lisboa.  Grandes artistas, poetas e escritores.  Alguns brasileiros também serão indicados e em breve todos poderão conhecer os nomes dos brasileiros confirmados.  
Segue abaixo alguns nomes que irão fortalecer e enriquecer este núcleo e que deixarão seus nomes na imortalidade. 
1 -Roberto Chichorro (Moçambique) 
2 - David Levy Lima (Cabo-Verde) 
3 - Ascêncio de Freitas (Moçambique) 
4 - Jorge Viegas (Moçambique) 
5 - Ribeiro Canotilho (Moçambique) 
6 - Waldir Araújo (Guiné-Bissau)
7 - Ana Mafalda Leite (Moçambique) 
8 - Fernando Grade (Portugal) 
9 - Mário Máximo (Portugal)
10 - Alberto Araújo (Timor-Leste) 
11 - Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)
12 - Vera Novo Fornelos (Portugal)
13 - Samuel Pimenta (Portugal)


domingo, 8 de dezembro de 2013

“MADALENA O TRADICIONAL CASAMENTO SEM AMOR”

Quando o parto de “Madalena - O tradicional Casamento sem amor” aconteceu, deixou de pertencer ao autor HOSTEN YASSINE ALI, sendo carinhosamente acariciado pelos seus leitores  cúmplices. Depois de conquistar muitos destes leitores em Portugal, eis que me surge finalmente nas mãos fresquinho, kanimambo vida que o trouxe aos meus sentidos… depois de encontros, desencontros e reencontros com o autor. Obviamente, uma grande surpresa, como de resto o próprio autor. Bons olhos o vejam!
Um jovem oficial da marinha moçambicana em Portugal, em formação superior, habituado a disciplina reclusiva e rigor, propícia ao Escritor em potência que já morava nele, foi reflectindo em torno de questões fundamentais da sociedade moçambicana e da nossa existência. Um olhar microscópico sobre realidades já conhecidas nalguns casos, mas não debatidas e eventualmente desconhecidas para outros.
Períodos longos que permitiram ao Autor um longo namoro com a escrita de que resultou este belo livro, magistralmente escrito.
O jovem Escritor Moçambicano, um Cronista de excelência e um grande romancista em potência, surpreendem pela maturidade na escrita, pelas escolhas que fez enquanto “iniciante” na literatura e pela enorme qualidade e valor estético-literário da sua obra (“Kurhula” crónicas e “Madalena- O tradicional casamento sem amor” Romance). Escolha arriscada , mas pensada. Calculo.
As tradições aqui desnudadas, muitas vezes incompreendidas são um apelo ao seu conhecimento, compreensão e descodificação.
A identidade de qualquer povo está alicerçada na língua e  num sistema de valores e tradições mais ou menos contestados, sobretudo quando se sofrem 500 anos de colonização e um combate cego, feroz e desigual (ao tribalismo, regionalismo, obscurantismo), desde 1975, e que se prolongou num longo período pós-independência até 1986, terminando sem vencedores nem vencidos.
Não se combatem as tradições com decretos lei. Mas, qualquer tradição pode conter nela códigos e práticas nocivas ou até carregadas de violações de direitos fundamentais e genericamente atropelos graves à dignidade humana para as sociedades modernas, em especial para as mulheres da sociedade moçambicana actual, no actual estágio de desenvolvimento. Mas, por outro lado, podem conter códigos que beneficiam franjas de cidadãos fragilizados pela sua condição, particularmente as mulheres em determinados contextos.
Nesse sentido, o Autor interpela-nos e motiva-nos à reflexão profunda sobre uma realidade que existe e que não pode jamais ser ignorada.
Cabe-nos a nós leitores, fazer a escolha subjectiva entre o que é nocivo e o que é benéfico, contribuindo se possível para o debate e para a eliminação, se necessário, de práticas nocivas ou não, que efectivamente podem prejudicar mais do que beneficiar globalmente a sociedade moçambicana, num diálogo sábio e permanente com as tradições.   


DELMAR MAIA GONÇALVES

(PRESIDENTE DO CÍRCULO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA – CEMD) 

Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista escritor Delmar Gonçalves


Delmar Maia Gonçalves nasceu a 5 de Julho de 1969 em Moçambique. É Membro do Júri do I Concurso Internacional de Escritores Infanto-Juvenis “La Atrevida” e Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Também é membro do Conselho Cultural da Associação Cultural e Artística Portugal-Lituânia e Membro da direção do Movimento Internacional Lusófono. Livros Publicados: Moçambique Novo, o Enigma; Moçambiquizando; Afrozambeziando Ninfas e Deusas; Mestiço de Corpo Inteiro; Entre dois rios com margens. www.delmarmg.tk.


1.      Prezado escritor Delmar Gonçalves para nós é um prazer contar com a sua participação no projeto Divulga Escritor. Conte-nos o que mais lhe atrai na escrita literária? O que o motiva a escrever?

DMG: O que mais me atrai na escrita literária é o eterno namoro do Poeta com as  palavras. Os escritores buscam a eternidade delas e não se cansam nunca da virtude da beleza e do espanto! O que me motiva a escrever é o sentimento grato de estar vivo e viver. Sobreviver  apenas , não é justo! A poesia da vida não aceita! Depois, o vínculo da minha escrita ao útil. A literatura come-se, porque nos alimenta o corpo e a alma eliminando as gorduras desnecessárias.


2.      Que temas você aborda em seu livro “Moçambique Novo, o Enigma”?

DMG: No livro MOÇAMBIQUE NOVO, O ENIGMA, meu país que é efectivamente um enigma é o tema central do livro. Seus dramas, tristezas, alegrias, vitórias e derrotas estão presentes.


3.      Como surgiu a ideia de escrever seu livro “Moçambiquizando”? Como foi a escolha do Título?

DMG: No fundo, a continuação de um exercício de moçambicanidade co “MOÇAMBIQUIZANDO”. Uma espécie de dança, uma celebração do meu país. Uma necessidade de abraçar o meu país! O título para mim diz sempre muito. Mas, este saiu naturalmente para perpetuar minha relação especial com ele!


4.      “Afrozambeziando Ninfas e Deusas” Em quanto tempo você escreveu este livro? Que temas você aborda nesta obra?

DMG: Não faço ideia. Fui escrevendo e não dei pelo tempo. A escrita absorve-me sem me cansar. Nesta obra o tema central é a mulher. A mulher Africana, a mulher Moçambicana, a mulher mãe, a amante, a prostituta ou a Deusa.


5.      Qual o público que você pretende atingir com o seu trabalho? Que mensagem você quer transmitir para as pessoas?

DMG: Escrevo por puro prazer. Não escrevo a pensar no público. Nessa medida, não escolho público alvo. Mas como é óbvio, gostaria de ser lido por todos e em especial por aqueles que não compreendem o que é ser emigrante, imigrante forçado ou exilado e viver na diáspora, fora da sua pátria! A minha mensagem é de paz, verdade, humanismo, irreverência, coragem e fraternidade universal.

6.      Escritor Delmar de que forma você divulga, hoje, o seu trabalho?

DMG: Divulgo através de entrevistas às rádios, televisões, revistas, jornais, participação em eventos culturais nacionais ou de cariz internacional, sites, blogues e das redes sociais.

7.      Onde podemos comprar os seus livros?

DMG: Em diversas livrarias de Lisboa, em Sites de livrarias Portuguesas  e espanholas online, de editoras, no meu Site pessoal e do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.


8.      Você hoje é presidente/representante de várias entidades literárias, conte-nos quais seus principais objetivos ao Representar estas entidades? De forma resumida quais as principais  atividades que vocês desenvolvem? Quem pode participar?

DMG: Ao representar várias entidades literárias pretendo apenas intensificar e formalizar meu vínculo e paixão eternos com a literatura, promovendo-a e promovendo velhos e novos autores, uns mais reconhecidos, outros menos, uns mais mediáticos outros não! Promovemos um Encontro anual, uma Gala trianual, uma Revista do Encontro, Revistas Culturais mensais, Tertúlias de Poesia regular e Encontros mensais com escritores e poetas. A participação é sempre aberta a todos independentemente da sua nacionalidade. Participam essencialmente poetas, escritores (ensaístas, cronistas, romancistas, contistas), jornalistas, artistas plásticos e críticos literários. Atribuímos um Reconhecimento anual a um Escritor/ Poeta e outro a um Artista Plástico. E  escolhemos Sócios Honorários que contribuem para a cooperação e o intercâmbio Lusófonos.


9.      Que diferenças literárias você citaria entre o mercado literário de Portugal e mercado literário de Moçambique?

DMG: O mercado literário português é muito mais competitivo, há muito mais oferta de autores e livros. Há mais hipóteses de escolha. O mercado moçambicano verifica-se estar em franco crescimento, com muitos autores de qualidade, mas com limitações na área editorial , que ainda carece de muito financiamento e alguma dependência do mecenato cultural. Acredito no futuro da literatura moçambicana que não se resume aos quatro ou cinco autores de que se vai falando de forma insistente. Há muitos mais e com enorme qualidade. Alguns deles muito jovens e que merecem todo o carinho e apoio, bastando que apostem neles.


10.  Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor o Escritor Delmar Gonçalves, que mensagem você deixa para nossos leitores?

DMG: Quero deixar um grande e fraterno abraço aos leitores do Projeto DIVULGA ESCRITOR e para quem não conhece bem a LITERATURA MOÇAMBICANA, que ultrapassa as fronteiras geográficas de Moçambique, procure aprofundar esse escasso conhecimento e tornar-se-á rapidamente uma enorme paixão!!! Grato abraço SHIRLEY M. CAVALCANTE.



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ENTREVISTA AO JORNAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA IMPRENSA


1 - Em que ponto está o Acordo Ortográfico em Moçambique? O governo chegou a ratificar?
O Governo de Moçambique ratificou o AO em 2012. Essa posição teve em conta a Presidência da CPLP que o país assumiu. De resto é a posição do Governo Moçambicano de que os moçambicanos falam português, mas com características muito próprias, tendo em conta o grande peso das chamadas línguas nacionais. Na perspectiva deste Governo haverá também aqui imenso trabalho a fazer entre a ratificação do AO já feita e a plena entrada em vigor do mesmo. Sendo preciso clarificar a dimensão total e global das implicações de natureza não só financeira, como também, organizativa e operativa da língua.

2 - Há oposição significativa ao AO em Moçambique?
Se considerar os escritores, poetas, jornalistas, professores de todos os níveis de ensino, formadores, educadores, investigadores, linguistas, artistas plásticos e alguns políticos moçambicanos significativos, então sim, é muito significativa a oposição. Depois, não se pode esquecer toda a massa intelectual moçambicana nas várias diásporas. Para além das vozes que se erguem, há ainda muitas vozes silenciosas.

3 - Qual é a opinião do senhor sobre as novas regras adotadas pelo AO?
A minha posição é clara. Sou absolutamente contra o AO, digo mais: repudio-o! Este acordo nem sequer tem em conta a realidade específica de Moçambique, é um acordo meramente de cariz económico-financeiro, que não respeita as especificidades culturais dos diversos países da CPLP (africanos e Timor-Leste).

4 - Na opinião do senhor, o AO leva em conta as diferenças culturais entre os diversos países falantes de Português?
Na minha opinião, não leva em conta, nem respeita as diferenças culturais e linguísticas dentro do espaço da CPLP. Além da língua portuguesa, quantas línguas mais se falam na Guiné-Bissau? Quantas línguas mais se falam em Angola? Quantas línguas mais se falam em Moçambique? Quantas línguas se falam em São Tomé e Príncipe, Cabo Verde ou Timor –Leste?
Alguém teve em conta que em alguns destes países a padronização destas línguas estava ainda em curso ou, em alguns casos, não se tinha ainda iniciado? E a alfabetização que decorria terá que ser feita em novos moldes?

5 - O AO facilita ou dificulta o ensino da língua em Moçambique?
Se fala do ensino na língua portuguesa, eu diria pessoalmente, que dificulta. Porquê? Porque a formação ainda é deficitária. Muita gente já sentia dificuldades na norma anterior da escrita e da fala e estava ainda num processo de consolidação. Com o novo AO todo o trabalho feito, que foi muito e significativo, vai por água abaixo. Quem domina a língua portuguesa, actualmente, precisa de formação e até que, o domínio da nova norma seja efectivo, isso levará quanto tempo? Moçambique ainda tem falta de quadros na educação e os que há, apresentam algum défice de formação contínua, salvo uma relativa minoria e precisaremos de formadores em todas as áreas e sectores de actividade da sociedade, não só de educação. Quem, como e quando serão formados? E por quem? Quantos especialistas do novo AO há disponíveis para ir formar Moçambique de norte a sul? E quem lhes irá financiar?
Outro facto a ter em conta, como atrás referi, será o da padronização das outras línguas faladas em Moçambique. Já existem aulas experimentais de alfabetização nalgumas línguas nacionais e outras ainda em processo de estudo. Como ficará tudo isto? Pergunto-me se tiveram em conta todos estes factores?

E os manuais escolares moçambicanos serão produzidos por quem? Quem os financiará? Onde serão editados e quem serão os seus autores? Em quanto tempo será feito tudo isto? Quem irá financiar e apetrechar as bibliotecas nacionais, locais e escolares, que ainda recebem livros com a norma anterior e que muito se lamentam da falta de livros técnicos e não só?