segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Sinopse Biobibliográfica - Leituras em Diagonal
O Delmar tem o hábito de datar os seus poemas e neles apor a indicação expressa da localidade onde foram escritos. Os poemas que estão a ser compulsados por mim foram todos escritos em Portugal nos lugares de Lisboa, Parede, Monte Estoril, Algés, Paço de Arcos, com excepção de um, o qual tem a indicação da cidade de Maputo.
Nalguns dos poemas, que eu entendo ser os menos conseguidos, o autor funciona como o eco da ideologia veiculada pelos comissários políticos da revolução que ocorreu no seu país: "Na minha pátria/ não há pretos nem brancos, / há moçambicanos! / Na minha pátria / não há mulatos nem monhés/ há moçambicanos!/ E moçambicano/ é aquele que / sente o pulsar da / pátria/ Moçambicano / é aquele que a vive."
2. Conturbado pelas grandes angústias e pelos grandes medos que se abateram sobre os seus antepassados o poeta abandona o casulo da sua singularidade subjectiva e assume-se como sendo a voz inadiável daqueles a quem em vida foi negado o direito de ser e de dizer: "Não sou mais eu/ quem grita de raiva por todas aquelas injustiças cometidas/ no passado." - "Não sou mais eu / quem chora os exílios forçados no presente." - "Sou apenas e só um porta-voz involuntário/ de uma situação que se gerou."
3. Confrangido pelo desacerto das relações humanas o poeta idealiza a possibilidade de conversar muito terra-a-terra com Nosso Senhor Jesus Cristo, e apresentar-Lhe algumas perguntas para as quais não encontra resposta:"Perguntarei ao "Cristo"/ porque será que/ sendo judeu, / o amam tanto, /odiando os outros judeus, Perguntarei ao Cristo/ porque odeiam tanto / o homem negro,/ os homens do norte." Perguntas estas que não teriam razão de ser caso os homens tivessem interiorizado as virtudes da humildade, do amor e da compaixão exaltadas na mensagem de Jesus Cristo.
Moçambicano na diáspora o Delmar transporta amorosamente na sua memória as imagens de um tempo africano, "Em sonhos nostálgicos/ revejo mofanas e adultos/ semi-nus e descalços percorrendo/ a Zalala", e essas imagens são tão fortes e imprevistas que fazem parte integrante do seu ser:"Moçambique/ tu danças em mim/ e eu em ti./ Não te esqueças/ Moçambique:/ eu sou tu/ e tu és eu!".
São ainda de referir as poesias que têm como temas ciclos históricos já encerrados. A primeira intitulada de "Lembrar Timor", rememora o morticínio do povo timorense na sua luta pela liberdade: " Terra de esperança/ chamada desespero./ Terra mártir/ de povo humilhado."
A segunda evoca Samora Machel, a figura central e emblemática da revolução moçambicana, e primeiro presidente do país: "O rosto/ uma expressão viva de esperança./ As mãos/ sinónimo de vitalidade. / O corpo / sinónimo de espontaneidade. / A voz / um ecoar de vozes adormecidas." Os versos relativos às mãos de Samora condizem com a opinião do jornalista Carlos Cardoso que sobre as mesmas escreveu: "As suas mãos nunca paravam. Ficavam gravadas nas mentes das pessoas através dos contacto pessoal, das fotografias nos jornais, em filmes, e através de reuniões e comícios".
In Antologia "Inquietação", Editorial Minerva, Lisboa, 2006.
Jorge Viegas
(Poeta e Escritor Moçambicano)
Quinta do Conde, 2006.
domingo, 4 de maio de 2008
Leituras em Diagonal
Os poemas deste livro abordam uma questão que, para muitos, nunca encontrará uma solução ideal, que é o da condição de se ser mestiço. Um problema que tanto a boa como a má literatura não poderão ajudar a resolver, mas somente a enunciar. Porque as ideias e as emoções que recebemos de leituras diversas poderão alterar os “quadros do nosso consciente, mas nada poderão fazer a nível do nosso inconsciente. E esse inconsciente, quando colectivo, vincula-nos a uma identidade de grupo.
As defesas do inconsciente colectivo tem por base linhas de divisão infracturáveis. Não há espaço para uma terra de ninguém, porque, quem não é como nós, é contra nós. “E da palavra raça/nascerão o ódio e o medo”, escreveu o poeta Nuno Bermudes exprimindo duma forma sintética a profunda divisão que se alberga no coração do homem.
As pontes para ligarem as pessoas que, à partida habitam mundos diferentes, são sempre de carácter transitório.
Nas alturas decisivas elas voltam a fechar-se nos mundos a que pertencem. E é vedada ao mestiço a liberdade de escolher um desses mundos por aqueles que entendem ser os seus legítimos habitantes: “Quando tu/ irmão branco/ de coração umbiguista/ me procuras insultar/ chamando-me preto/ só me dá vontade de rir,/ rir de tristeza/na tua cara/sem nunca mais parar!/ Quanto a ti/ irmão negro/ de coração libertino/do tamanho da África/ quando me procuras/ofender/ chamando-me/ misto sem bandeira/ dá-me vontade de chorar/chorar eternamente...” E duas das supostas linhas de separação entre o mundo branco e o mundo negro transparece na carga adjectiva de alguns versos: “Irmão branco/ de coração umbiguista”, indicam o auto-convencimento duma superioridade inata como característica principal dos homens de tez clara, e os que referem o “Irmão negro/ de coração libertino”, apontam para dois sentidos diferentes, sendo um positivo e o outro negativo. O Positivo, que entendemos ser também o do autor, indica a consciência de que os africanos começam a reflectir livremente sobre si mesmos, libertos das peias do paternalismo dos brancos. O negativo situa-se na equação, fácil de se aceitar, entre uma epiderme escura e uma forte carga de sensualidade.
O Delmar é um poeta que escreve como quem reflecte. Que tem sérias dúvidas sobre a qualidade da linguagem que pratica: “Nem a minha/ engenharia cerebral/ pensadora e reflexiva/nem a minha/mais humilde gramática/ chuabo/ conseguem encontrar/ resposta lógica/e racional” para o problema X. Para o problema Y, que poderá ser o da questão racial, também não poderá encontrar nenhuma resposta convincente e definitiva. Mas ao lembrar-nos de um modo persistente que o problema existe mantém de sobreaviso as nossas consciências.
Jorge Viegas
(Poeta e Escritor Moçambicano)
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