Conhecer o mundo,
e a teus pés envelhecer.
o teu fado é a nossa sina,
Vale tudo enquanto parecer.
Remar ao lado do vento,
alcançar o céu e vencer. ...
Adoro os teus poemas.
Tua amiga Cris Araújo
Cristina Araújo
(Professora de EVT e Artista Plástica)
Lisboa, 5 de Abril de 2009.
terça-feira, 7 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Caro Njomba Delmar Maia Gonçalves!!
O reino emocional do criador é a sabedoria e culto com cultura, ninguem cria condignamente o que não sente nem entende, o criador acumula sentimentos.
Para o artista a escrita e a escultura é um testemunho vivo de um imaginário artístico, o mundo dele tem que ser conquistado em cada acto de afirmação e cada livro do Delmar é uma canção ouvida para quem sente e entende a palavra magica: arte!
Porém, o criador interroga, quem és tu? Que está ai escondido? Nessa altura o que ele vê é a forma interior, importa ter em consideração que um objecto de arte tem provavelmente qualidade de representação numa série de níveis culturais, de diferentes visões, o artista apenas pode criar o que o proprio esquema mental lhe permite reproduzir. Algo que pode ter uma função positiva ou negativa, por um lado, o artista perde alguma da realidade, porque permanece a ideia de que não examina com o devido cuidado de um ponto de vista único a aparência do objecto retratado.
O que o artista cria reflecte a sua interpretação mental do mundo que nos rodeia...,
Força muita força amigo Delmar..
Mashala uti manjomba,
com um grande abraço da nossa moçambicanidade de njomba Ntaluma
Ntaluma
(Escultor Makonde)
Lisboa, 2 de Outubro de 2008.
Lisboa, 2 de Outubro de 2008.
domingo, 29 de março de 2009
ORIUNDO de Moçambique, onde nasceu nos últimos anos do período colonial-fascista português (1969, ainda com António Salazar vivo, mas já taralhoco e fora do Governo), Delmar Maia Goçalves — DMG — passa a infância e a parte principal da adolescência no Quelimane natal, e chega à Europa e ao nosso país com a idade de 16 anos. Este facto biográfico de DMG possibilita-nos, desde logo, aferir de uma sua ligação ou vínculo muito estreito às raízes moçambicanas, onde foi gerado e de onde proveio, e a uma ambiência sui generis, que ultrapassa de longe a chamada cor local. A partir deste último referente — com todos os ingredientes do foro geográfico e uma nomenclatura, quiçá, típica, onde se englobam a fauna e a flora africanas e as figuras sublinháveis do habitat —, o Autor tem atingido outros pressupostos, como sejam as lutas de solidariedade internacionais, a visão ecuménica do mundo, a dádiva pelo outro e a relação amorosa entre homem e mulher que, no paradigma vertente, se corporiza melhor entre branco e negra, ou vice-versa, ou acerca do posicionamento sociológico ou arquetipal do mulato. Em minha opinião, a rota do mulato encontra-se mais perto do branco que do negro.
"Afrozambeziando ninfas e deusas", este livro de agora, assume-se, por seu turno, como um conjunto de textos poéticos onde o principal fulcro motivacional são os aspectos passionais do Amor, tudo o que diga respeito a Eros, tudo longe de Platão, e utilizando uma linguagem que privilegia o denotativo tout court: não são de sua índole ou em face de um formato psicológico ou cultural as buscas constitutivas de um possível conotativo. Aliás, e pelo que conhecemos de DMG, o seu discurso desenvolve-se sempre na esteira de um sonho de olhos abertos, idealiza e corporiza o que acha pertinente sonhar; não pratica o automatismo psíquico nem envereda por caminhos da experimentação frásica. Com efeito, orienta-se em função do húmus onde nasceu, bem como seguindo as pisadas do tipo de leituras que, decerto, teve no seu torrão moçambicano e pelas quais foi formado. Leituras (sublinhe-se) acompanhadas, não admira, pelo feitiço dos contos orais em que a África, então, dita portuguesa, era fértil.
Dentro desta perspectiva, os dois amantes heterossexuais movimentam-se sempre num universo onde o "Teu corpo / É como um / Rio sem margens (...)", e tudo se move ao redor "de um amor / que quer ser eterno".
No que concerne à tónica do corpo aberto ao fulgor físico e à liberdade de gestos, esse individualizador é adjectivado como "corpo esbelto" ou cunhado com a etiqueta de "o teu corpo que me pertence". Pode, outrossim, atingir um diapasão mais recôndito: "Teu corpo / um convite velado". Entretanto, no poema "Mulher XXIII", depara-se com outra definição, ou seja, aparece o "Teu corpo" (como) "um território sagrado". E, no texto "Mulher IV", está instaurada a dúvida metódica, digamos assim: não se sabe em virtude de que predicado o Autor ama. Se tal se verifica em face de "Será o teu olhar, Será a tua voz / Será o teu corpo / Será o teu espírito?" Mais ainda: no poema "Mulher XIV", DMG aspira, suspira por "suaves carícias", "para se embrenhar no teu corpo..."
Em definitivo, na composição "Femme XVII — Éternité interrompue", descobrimos, intensos e desesperados,
Deux corps unis Dans un seul" (...).
Não devemos olvidar o que é, porventura, o motor mais eficaz do mundo: tudo vai e vem, tudo parte e se renova ou se extingue na volumetria do corpo. Ele, o único, que é genético e, simultaneamente, um painel de socialização. O corpo acaba por ser o que a sociedade quiser que seja; é depositário de muitas e contrastadas posturas e visões. Somos, sem rebuço, o que comemos, e respiramos, o que sentimos e, mesmo, por que não?, o que amamos. Fingidos ou desgraçados, eufóricos ou mal tidos. Malditos. Sanguíneos, até à medula. O Amor engrandece-nos ou destrói-nos; faz de nós marionetas ou praticantes sublimes.
DMG resolve a vida com base na ambiência transfigurada e transformista de Eros e, embora a sua erótica (dele, Autor) não assuma jamais um tono agressivo, é inquestionável que constitui uma motivação única no seu actual trajecto.
Fora desta emblemática corporal, aparecem algumas composições, poucas, onde os motivos divergem, nomeadamente aqueles onde são mais notórias as matrizes sociais, uma estilística pragmática que terá a ver com os anseios dos últimos anos 40 portugueses, melhor dizendo, do Neo-realismo, o tom directo dos poetas conimbricenses do "Novo Cancioneiro"... Mas vazado para as plagas muito telúricas e carenciadas de África, onde as injustiças campeiam.
Neste contexto, retive "A História de Maria Preta Relembrada", as composições dedicadas à avó Vitória e à avó Rita, o cântico ao futuro que ressalta de "Mulher Africana I", e aqui, para lá do desamor e das humilhações, há um apelo ao sorriso de galvanização.
Finalmente, refiro o poema "Criança, Mulher e Filha", no qual DMG constrói um clima ternurento e enternecedor, dedicado a sua filha (Luna). Nome, esse, que, em si mesmo, sans doute, já é um convite escancarado à poesia...
Fernando Grade
(Poeta, Escritor, Artista Plástico, Crítico de Arte e Crítico de Literatura)
Estoril e Oeiras, Primavera de 2006
É um testemunho de alguém que se importa com o que se passa à sua volta e com os outros, alguém que não suporta injustiça e que critica o que está mal.
"Afrozambeziando Ninfas e Deusas" é uma homenagem à mulher.
Delmar, já li os teus Livros.O último é a tua vida,és tu.A apresentação está perfeita.
Maria Lucília Gomes
(Professora do Ensino Básico de Matemática e Ciências)
28 de Junho de 2006
"Afrozambeziando Ninfas e Deusas" é uma homenagem à mulher.
Delmar, já li os teus Livros.O último é a tua vida,és tu.A apresentação está perfeita.
Maria Lucília Gomes
(Professora do Ensino Básico de Matemática e Ciências)
28 de Junho de 2006
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Um dia fui chamado Delmar
Mama
Porque me chamaste Delmar?
Porque me deste de o ti o destino
Me deste a mim a chama, a vida, o viver e o existir?
Chamaste o nome sem saber que de começo o merecia.
Era a já conhecida a dávida.
Seria Deus ou destino?
Outrora, nada sabia o que era...
Hoje com o começo do caminho
Já sei o rumo do destino.
Deste-me o mar
Que pelo caminho me enviou
A estrada do meu universo
Que é o mundo da magia das letras!
Mira
(contadora de histórias brasileira)
Mama
Porque me chamaste Delmar?
Porque me deste de o ti o destino
Me deste a mim a chama, a vida, o viver e o existir?
Chamaste o nome sem saber que de começo o merecia.
Era a já conhecida a dávida.
Seria Deus ou destino?
Outrora, nada sabia o que era...
Hoje com o começo do caminho
Já sei o rumo do destino.
Deste-me o mar
Que pelo caminho me enviou
A estrada do meu universo
Que é o mundo da magia das letras!
Mira
(contadora de histórias brasileira)
DELMAR MAIA GONÇALVES por RUI SILVA
Penso que o Sr. Delmar Maia Gonçalves é um dos melhores poetas e escritores moçambicanos, pela sua escrita simples e verdadeira, que entra por "nós" dentro, que nos aquece a alma e nos faz "sonhar" com Moçambique e os seus problemas.
Fico grato por ter um amigo assim.
Rui Silva
(Poeta Popular Português)
Fico grato por ter um amigo assim.
Rui Silva
(Poeta Popular Português)
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
O Eleito
És tu, que te ocultas não sei ainda onde...
És tu, que és mágico artístico, poeta perfeito...
És tu, que brilhas uma luz que se não esconde...
És tu, homem sublime e rarefeito...
Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, Dezembro 2007
És tu, que és mágico artístico, poeta perfeito...
És tu, que brilhas uma luz que se não esconde...
És tu, homem sublime e rarefeito...
Vera Novo Fornelos
(Poetisa e Artista Plástica)
Viana do Castelo, Dezembro 2007
sábado, 23 de agosto de 2008
Moçambiquizando é a obra que marca o regresso do poeta Delmar Maia Gonçalves, um dos mais eminentes representantes da nova geração de escritores moçambicanos.
Em Moçambiquizando permanece presente a marca poética característica do autor, cuja poesia intervencionista prossegue instigando a reflexão sobre o Moçambique pós-independência, assim como, de fazer a denúncia ao drama étnico que atinge o mestiço - nem negro nem branco.
Edmundo Verdades
(psicólogo e bailarino Angolano)
Com o sugestivo título "Moçambiquizando", está de regresso o poeta Delmar Maia Gonçalves, protagonista de uma poesia de intervenção que induz à reflexão social e celebra a condição de ser moçambicano.
É um dos maiores representantes da nova vaga de escritores de Moçambique.
"Moçambiquizando"
culmina ser uma declaração de amor e memória a uma pátria nunca esquecida e sobejamente amada.
Edmundo Verdades
(Psicólogo e Bailarino Angolano)
DELMAR MAIA GONÇALVES por ANA PAULA LOUREIRO
Uma voz que emerge no silêncio e se dá a conhecer através de uma leitura simples e de fácil compreensão, o sentido nato da observação que lhe é peculiar, o estar atento a tudo que o rodeia e a sua hipersensibilidade bem visivel, não esquecendo o amor à pátria...
Ana Paula Loureiro
(Poeta Moçambicana)
Obrigada por se ter dado a conhecer e também por ter dado recados do seu país que tanto ama.
Sobre os poemas, literariamente falando, tem a marca natural da narrativa africana, contam com simplicidade, estados de alma e situações vividas.
Gostei muito de poemas como "Nostalgia Africana" ou "As duas faces do cão tinhoso".
Lídia Jorge
(escritora)
Sobre os poemas, literariamente falando, tem a marca natural da narrativa africana, contam com simplicidade, estados de alma e situações vividas.
Gostei muito de poemas como "Nostalgia Africana" ou "As duas faces do cão tinhoso".
Lídia Jorge
(escritora)
domingo, 27 de julho de 2008
"África d'ontem"
Delmar, dedicado a ti, conterrâneo e pensando nos teus ancestrais africanos!
Moreno amigo,
Tens alma de sede...
Sede de saber,
Sede de ouvir,
Sede de falar,
Sede de aprender,
Sede de criar,
Sede de gritar!...
Oh!... África minha!...
Onde estás?
Como estás?
O que sentes?...
Sopra um vento,
Um vento NORTE!
Solta cabelos negros
Leva tudo....
levou tudo...
Há brisa leve e suave,
Mas os corações batem,
Os corações lembram,
Os corações choram.
Onde estás ÁFRICA?
Eras raiz...
Raiz de palmeira
Que o vento colheu!...
Gracinda Leão
(professora)
Nante/Quelimane 10/02/2004
Moreno amigo,
Tens alma de sede...
Sede de saber,
Sede de ouvir,
Sede de falar,
Sede de aprender,
Sede de criar,
Sede de gritar!...
Oh!... África minha!...
Onde estás?
Como estás?
O que sentes?...
Sopra um vento,
Um vento NORTE!
Solta cabelos negros
Leva tudo....
levou tudo...
Há brisa leve e suave,
Mas os corações batem,
Os corações lembram,
Os corações choram.
Onde estás ÁFRICA?
Eras raiz...
Raiz de palmeira
Que o vento colheu!...
Gracinda Leão
(professora)
Nante/Quelimane 10/02/2004
Uma Liberdade fustigada pela cor do sangue
Uma Liberdade fustigada pela cor do sangue
Derramado no interstício silencioso
Do eco da Palavra.
Uma Liberdade que oprime e restringe
O que a língua unifica.
Laivo negro preso num verso em branco,
Opróbrio anelante numa página branca.
Será mais poderoso a palavra impressa,
Ou a página branca pungente e perversa?
Uma harmonia impetuosa, revolta em saudades etéreas...
Imagens lúcidas resguardadas, irrompem
E dissipam o silêncio...
Os segredos assomam-se neste mundo
Que regozija de lúgubres murmúrios...
O véu deambulatório não permite o olhar
Para além de um frágil e tímido horizonte
Restringido por palavras desmesuradas.
Delmar, del Sol desemaranhado das palavras sentidas e agouros,
Canta e grita até que o verso se confunda com o sopro do vento
E agite e aclame a tua voz...
O teu verso transpõe a debil barreira que o mundo austenta.
A tua imaginação cria o poema,
Revelando a essência exaltada pela ambição de uma cor que não existe!
Haverá cor para a dor, para a superioridade, para o escravo, para o olhar de soslaio...
Perpetua sempre o eterno numa estrofe límpida e perfeita
O sonho convicto da esperança guardada algures na tua mão.
Jamais ilusório, amanhecerá no teu rosto, irmão,
E espalhará a quem o quiser sentir, reflectir ou simplesmente ouvir
De mãos dadas irmãos de sangue...
Não sou ninguém, não és ninguém
Ambos pertencemos ao mesmo mundo, o do além...
Desembaraçado de fronteiras e cores...
Deixa-me o apanásio de poder honrar-te,
Apraz-me dizer-te, que do Mar ou do Sol
Hás de sempre erguer-te...
A Liberdade está dentro de ti,
Presa a cada palavra que a emoção transcreve pelo teu olhar...
Delmar Maia Gonçalves, poeta, amigo, irmão...
Valter Pereira (Poeta, Escritor e Professor do Ensino Básico)
nota introdutória ao livro "Entre dois rios com margens" (no prelo)
Derramado no interstício silencioso
Do eco da Palavra.
Uma Liberdade que oprime e restringe
O que a língua unifica.
Laivo negro preso num verso em branco,
Opróbrio anelante numa página branca.
Será mais poderoso a palavra impressa,
Ou a página branca pungente e perversa?
Uma harmonia impetuosa, revolta em saudades etéreas...
Imagens lúcidas resguardadas, irrompem
E dissipam o silêncio...
Os segredos assomam-se neste mundo
Que regozija de lúgubres murmúrios...
O véu deambulatório não permite o olhar
Para além de um frágil e tímido horizonte
Restringido por palavras desmesuradas.
Delmar, del Sol desemaranhado das palavras sentidas e agouros,
Canta e grita até que o verso se confunda com o sopro do vento
E agite e aclame a tua voz...
O teu verso transpõe a debil barreira que o mundo austenta.
A tua imaginação cria o poema,
Revelando a essência exaltada pela ambição de uma cor que não existe!
Haverá cor para a dor, para a superioridade, para o escravo, para o olhar de soslaio...
Perpetua sempre o eterno numa estrofe límpida e perfeita
O sonho convicto da esperança guardada algures na tua mão.
Jamais ilusório, amanhecerá no teu rosto, irmão,
E espalhará a quem o quiser sentir, reflectir ou simplesmente ouvir
De mãos dadas irmãos de sangue...
Não sou ninguém, não és ninguém
Ambos pertencemos ao mesmo mundo, o do além...
Desembaraçado de fronteiras e cores...
Deixa-me o apanásio de poder honrar-te,
Apraz-me dizer-te, que do Mar ou do Sol
Hás de sempre erguer-te...
A Liberdade está dentro de ti,
Presa a cada palavra que a emoção transcreve pelo teu olhar...
Delmar Maia Gonçalves, poeta, amigo, irmão...
Valter Pereira (Poeta, Escritor e Professor do Ensino Básico)
nota introdutória ao livro "Entre dois rios com margens" (no prelo)
domingo, 4 de maio de 2008
Leituras em Diagonal
“Mestiço de corpo inteiro” de Delmar Maia Gonçalves
Os poemas deste livro abordam uma questão que, para muitos, nunca encontrará uma solução ideal, que é o da condição de se ser mestiço. Um problema que tanto a boa como a má literatura não poderão ajudar a resolver, mas somente a enunciar. Porque as ideias e as emoções que recebemos de leituras diversas poderão alterar os “quadros do nosso consciente, mas nada poderão fazer a nível do nosso inconsciente. E esse inconsciente, quando colectivo, vincula-nos a uma identidade de grupo.
As defesas do inconsciente colectivo tem por base linhas de divisão infracturáveis. Não há espaço para uma terra de ninguém, porque, quem não é como nós, é contra nós. “E da palavra raça/nascerão o ódio e o medo”, escreveu o poeta Nuno Bermudes exprimindo duma forma sintética a profunda divisão que se alberga no coração do homem.
As pontes para ligarem as pessoas que, à partida habitam mundos diferentes, são sempre de carácter transitório.
Nas alturas decisivas elas voltam a fechar-se nos mundos a que pertencem. E é vedada ao mestiço a liberdade de escolher um desses mundos por aqueles que entendem ser os seus legítimos habitantes: “Quando tu/ irmão branco/ de coração umbiguista/ me procuras insultar/ chamando-me preto/ só me dá vontade de rir,/ rir de tristeza/na tua cara/sem nunca mais parar!/ Quanto a ti/ irmão negro/ de coração libertino/do tamanho da África/ quando me procuras/ofender/ chamando-me/ misto sem bandeira/ dá-me vontade de chorar/chorar eternamente...” E duas das supostas linhas de separação entre o mundo branco e o mundo negro transparece na carga adjectiva de alguns versos: “Irmão branco/ de coração umbiguista”, indicam o auto-convencimento duma superioridade inata como característica principal dos homens de tez clara, e os que referem o “Irmão negro/ de coração libertino”, apontam para dois sentidos diferentes, sendo um positivo e o outro negativo. O Positivo, que entendemos ser também o do autor, indica a consciência de que os africanos começam a reflectir livremente sobre si mesmos, libertos das peias do paternalismo dos brancos. O negativo situa-se na equação, fácil de se aceitar, entre uma epiderme escura e uma forte carga de sensualidade.
O Delmar é um poeta que escreve como quem reflecte. Que tem sérias dúvidas sobre a qualidade da linguagem que pratica: “Nem a minha/ engenharia cerebral/ pensadora e reflexiva/nem a minha/mais humilde gramática/ chuabo/ conseguem encontrar/ resposta lógica/e racional” para o problema X. Para o problema Y, que poderá ser o da questão racial, também não poderá encontrar nenhuma resposta convincente e definitiva. Mas ao lembrar-nos de um modo persistente que o problema existe mantém de sobreaviso as nossas consciências.
Jorge Viegas
(Poeta e Escritor Moçambicano)
Os poemas deste livro abordam uma questão que, para muitos, nunca encontrará uma solução ideal, que é o da condição de se ser mestiço. Um problema que tanto a boa como a má literatura não poderão ajudar a resolver, mas somente a enunciar. Porque as ideias e as emoções que recebemos de leituras diversas poderão alterar os “quadros do nosso consciente, mas nada poderão fazer a nível do nosso inconsciente. E esse inconsciente, quando colectivo, vincula-nos a uma identidade de grupo.
As defesas do inconsciente colectivo tem por base linhas de divisão infracturáveis. Não há espaço para uma terra de ninguém, porque, quem não é como nós, é contra nós. “E da palavra raça/nascerão o ódio e o medo”, escreveu o poeta Nuno Bermudes exprimindo duma forma sintética a profunda divisão que se alberga no coração do homem.
As pontes para ligarem as pessoas que, à partida habitam mundos diferentes, são sempre de carácter transitório.
Nas alturas decisivas elas voltam a fechar-se nos mundos a que pertencem. E é vedada ao mestiço a liberdade de escolher um desses mundos por aqueles que entendem ser os seus legítimos habitantes: “Quando tu/ irmão branco/ de coração umbiguista/ me procuras insultar/ chamando-me preto/ só me dá vontade de rir,/ rir de tristeza/na tua cara/sem nunca mais parar!/ Quanto a ti/ irmão negro/ de coração libertino/do tamanho da África/ quando me procuras/ofender/ chamando-me/ misto sem bandeira/ dá-me vontade de chorar/chorar eternamente...” E duas das supostas linhas de separação entre o mundo branco e o mundo negro transparece na carga adjectiva de alguns versos: “Irmão branco/ de coração umbiguista”, indicam o auto-convencimento duma superioridade inata como característica principal dos homens de tez clara, e os que referem o “Irmão negro/ de coração libertino”, apontam para dois sentidos diferentes, sendo um positivo e o outro negativo. O Positivo, que entendemos ser também o do autor, indica a consciência de que os africanos começam a reflectir livremente sobre si mesmos, libertos das peias do paternalismo dos brancos. O negativo situa-se na equação, fácil de se aceitar, entre uma epiderme escura e uma forte carga de sensualidade.
O Delmar é um poeta que escreve como quem reflecte. Que tem sérias dúvidas sobre a qualidade da linguagem que pratica: “Nem a minha/ engenharia cerebral/ pensadora e reflexiva/nem a minha/mais humilde gramática/ chuabo/ conseguem encontrar/ resposta lógica/e racional” para o problema X. Para o problema Y, que poderá ser o da questão racial, também não poderá encontrar nenhuma resposta convincente e definitiva. Mas ao lembrar-nos de um modo persistente que o problema existe mantém de sobreaviso as nossas consciências.
Jorge Viegas
(Poeta e Escritor Moçambicano)
Excerto do discurso improvisado do senhor Embaixador Miguel Mkaima, no lançamento do livro “Moçambiquizando” de Delmar Maia Gonçalves:
“Talvez a missão dele como Moçambicano, seja a de mostrar aos outros moçambicanos como devem ser moçambicanos.”
Dr. Miguel Mkaima
(Embaixador da República de Moçambique em Portugal)
“Talvez a missão dele como Moçambicano, seja a de mostrar aos outros moçambicanos como devem ser moçambicanos.”
Dr. Miguel Mkaima
(Embaixador da República de Moçambique em Portugal)
Discurso integral improvisado do Senhor Embaixador António Matonso, na cerimónia da recepção do galardão “África Today” de Literatura em representação do escritor premiado Delmar Maia Gonçalves:
“Muito obrigado a “África Today” pela distinção a este jovem poeta Moçambicano.
Um jovem poeta promissor, que se inspirou na tradição (ele é da Zambézia), na tradição poética Zambeziana e por outro lado na história, a história daqueles que foram dignos representantes do proto-nacionalismo moçambicano. Falo dos poetas José Craveirinha e Noémia de Sousa.
Eu penso que este prémio é muito bem merecido.
Este jovem talentoso que escreve muito bem, que sabe como bom zambeziano retratar os sentimentos, as paixões, os sofrimentos.”
Dr. António Matonso
(Embaixador da República de Moçambique na República de Angola)
“Muito obrigado a “África Today” pela distinção a este jovem poeta Moçambicano.
Um jovem poeta promissor, que se inspirou na tradição (ele é da Zambézia), na tradição poética Zambeziana e por outro lado na história, a história daqueles que foram dignos representantes do proto-nacionalismo moçambicano. Falo dos poetas José Craveirinha e Noémia de Sousa.
Eu penso que este prémio é muito bem merecido.
Este jovem talentoso que escreve muito bem, que sabe como bom zambeziano retratar os sentimentos, as paixões, os sofrimentos.”
Dr. António Matonso
(Embaixador da República de Moçambique na República de Angola)
Prefácio do livro "Mestiço de Corpo Inteiro" de Delmar Maia Gonçalves por André Corsino Tolentino
Não sei quanto as pessoas devem às circunstâncias do nascimento, o nome que um dia lhes deram ou o dia em que vieram ao mundo. O que tenho por certo é que, não vamos longe, em Castela e em Quelimane, o autor é do mar que nos transcende, filho de europeu e de africana, uma condição que o empurra na direcção do outro, e nasceu no dia D do meu Cabo Verde, 5 de Julho, 1975 para este e 1969 para aquele, seis anos de diferença.
Como se estas coincidências não bastassem, o autor e eu temos em comum o interesse pelo saber, a identidade pessoal e colectiva, as pessoas e o accionalismo, cujo princípio explicativo, segundo Alain Touraine, é a historicidade, isto é, a capacidade da sociedade agir sobre si própria pelo trabalho e pelas relações de classe. É o que me parece resultar do seu activismo estudantil, católico, docente, artístico e literário.
Às vozes ancestrais que murmuram na diáspora a tristeza de não podermos ser nós, o autor responde na dança da alma que resulta do negro e do branco, nem melhor nem pior, ponto final. E que em Moçambique novo, prossegue, estamos a construir uma nação de várias nações numa simbiose ímpar. Depois vêm a identidade nacional, a condição da mulher africana, o ecumenismo religioso, o amor, o sonho e a fraternidade, que compõem este belo livro de Delmar Gonçalves que li com prazer e recomendo com muito gosto.
Sim, há mais de dois mil anos, Lúcio Séneca terá dito que nenhum vento será favorável a quem não saiba a que porto se dirige. Será. Mas Delmar descobriu o caminho da fraternidade e da luta e, assim sendo, ao vento não será difícil ajudá-lo. Nem a nós, que podemos simplesmente adquirir e saborear a sua poesia do mar da mestiçagem humana.
Professor Doutor
André Corsino Tolentino
(Diplomata e Político Caboverdiano)
Lisboa, Outubro de 2006
Moçambique novo, o enigma
"Moçambique novo, o enigma" é a voz que denuncia a indiferença pela dor alheia e simultaneamente anuncia a esperança.
Desta forma, o léxico transporta uma sonoridade que constrói o corpo social de afectos de um povo.
Na verdade, Delmar exprime na leveza da pena a profundidade da natureza da relação afectuosa do Homem com a Terra. O poeta profeta desnuda a hipocrisia humana na singeleza cristalina de uma linguagem que desponta na poesia deste século.
Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Brasileira-Chiado 07/01/2006
Desta forma, o léxico transporta uma sonoridade que constrói o corpo social de afectos de um povo.
Na verdade, Delmar exprime na leveza da pena a profundidade da natureza da relação afectuosa do Homem com a Terra. O poeta profeta desnuda a hipocrisia humana na singeleza cristalina de uma linguagem que desponta na poesia deste século.
Isabel Carreira
(Artista Plástica, Professora de Literatura Portuguesa e Inglesa e Mestre em Relações Interculturais)
Brasileira-Chiado 07/01/2006
“É uma constante encontrar nos poemas de Delmar toda uma série de sentimentos, observações, ânsias, desejos que através do seu olhar crítico e sensível nos leva a cogitar sobre a vida, sobre o nosso semelhante e sobre nós próprios.”
Susana Alves
(articulista da Revista “Lusofonia” e Licenciada em Relações Internacionais)
Susana Alves
(articulista da Revista “Lusofonia” e Licenciada em Relações Internacionais)
“Nos poemas de Delmar, percebemos o quanto ele se preocupa com os outros, sejam seus irmãos de Moçambique, de Cabinda ou de Timor, da Palestina ou do Tibete, de Israel ou do Congo, da Serra Leoa ou do Afeganistão, da Colômbia ou do Iraque, da Libéria ou do Uganda, sejam as crianças, os heróis ou os amigos mais ou menos anónimos.”
Paula Ferraz
(professora de língua portuguesa e escritora)
Paula Ferraz
(professora de língua portuguesa e escritora)
O Delmar apresenta temas simples mas profundos, aparentemente comezinhos mas fortes e as palavras escolhidas ao sabor da emoção, da consciencialização dos problemas que o cercam vão tentando dar-nos todos os cambiantes da consciência humana, que são mais vastos que um floresta tropical".
Paula Ferraz
(professora de língua portuguesa, escritora, investigadora, dirigente do espaço Rui de Noronha)
Paula Ferraz
(professora de língua portuguesa, escritora, investigadora, dirigente do espaço Rui de Noronha)
Sobre o autor
"Uma vontade gritante de dar sentido à mestiçagem".
Rita Pablo
(Jornalista da Revista "África Today" e Expresso Online)
Rita Pablo
(Jornalista da Revista "África Today" e Expresso Online)
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