segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Uma interpretação do livro “Fuzilaram a Utopia” de Delmar Maia Gonçalves



Para compreender “Fuzilaram a Utopia” de Delmar Maia Gonçalves, será necessário relacionar o título com alguns aspectos implicados nos poemas, que considero serem importantes. Para esse efeito, vou começar por trazer à luz a definição de Utopia que interessa para leitura deste livro. Posteriormente, irei falar sobre o que move e demove a utopia, neste autor, e o caminho que faz até à conclusão contida no título.

Utopia é o arquétipo de uma civilização ideal, que tem por base a esperança e o desejo de transformação de uma sociedade em declínio. Para Delmar é um lugar onde “O sol voltará a brilhar,/ Sereno sobre o vesúvio humano/ Gaivotas pairarão, brancas,/ doidas de azul/ e os marinheiros regressarão/ cantando alegres melodias do futuro/ navegando sobre o verde oceano da vida”.

No entanto, a crença numa Utopia é constantemente posta em causa. Há um poema, por exemplo, em que ele afirma “gosto muito de ser (…) livre como os pássaros/ mas não muito/ Utopista/ mas não muito”. Dá a ideia de que ele tenta direccionar o leitor para ideais de liberdade e utopia, mas, logo a seguir, deflaciona-os ao dizer “mas não muito”, ou seja, quando parece que vai afirmar uma crença em algo, esta é logo refreada, com a introdução de uma oração adversativa. Além disso, qualquer intenção de esperança que se possa encontrar em algum poema terá sido eliminada, logo à partida, pelo próprio título, enquanto primeiro argumento. O que parece dar a poemas como “A esperança é uma bússola sem dono” uma certa estranheza. Eu entendo este poema como uma tradução do arquétipo da utopia, contudo, conforme citei antes, a crença na “esperança” terá sido eliminada, primeiro pelo título da capa, considerando que se a utopia foi fuzilada, terá deixado de existir definitivamente, o que anula qualquer hipótese de esperança; e depois por uma citação que antecede o poema em que ele afirma “Não é a elevada crocitação do Corvo que lhe eleva a razão”. Entendo que aqui pretende afirmar que não é por falar em mundos ideais ou esperança que acredita neles. Creio, deste modo, que isto poderá estar relacionado com a descrença num mundo que parece autoconsumir-se, um mundo em que as pessoas parecem caminhar passivamente para a morte e os predadores, quando caem, são substituídos por outros predadores ainda mais cruéis. O poema “Hipocrisia da inacção”, por exemplo, dá-nos um quadro muito representativo deste mundo em decadência, onde “engolimos o veneno/ do nosso silêncio” e “tranquilamente/ avançamos para a morte!”. Por isso, é que ele parece já não acreditar que haja lugar para a esperança: o mundo não só não quer ser curado dos seus problemas, como também se autoaniquila continuamente.

Existe também uma distinção mais ou menos clara entre aquilo que ele entende por um mundo em que tudo é possível e um mundo em que há limites, sendo que no primeiro consegue “saltar todos/ os degraus do tempo, abraçá-los” e no segundo “as chuvas/ são lágrimas de dor/ que no limite/ o mundo liberta”. Mais uma vez, o aparente entusiasmo é contido, mas, desta vez, por algo que está relacionado com o mundo real, ou seja, enquanto descreve um mundo em que é possível “saltar (…) os degraus do tempo”, no final do poema recorda-nos que “as chuvas do mundo”, afinal, são “lágrimas de dor”. A sua versão de um mundo perfeito terá sido, aparentemente, substituída por uma mais degradada no mundo real. Esta distinção está, em primeiro lugar, assente numa dicotomia entre um lugar em que tudo é ilimitado e um lugar em que tudo é limitado. Esses limites são impostos, neste poema, pelas “Nuvens” que são o “grande e seguro tecto do mundo” e são estes limites que impedem a Utopia de se manifestar na sua totalidade, dentro e fora da mente do poeta. Por esse motivo, o seu arquétipo de uma sociedade ideal terá entrado em vertiginoso declínio ao consciencializar-se da impossibilidade da sua manifestação no real.

A estrutura formal da sua poesia está também em consonância com o seu pensamento, rompendo com os padrões esteticamente normativos, não respeitando métrica, rima ou ritmo, se bem que, em alguns poemas ainda permanecem sons dos batuques, num ritmo cardíaco lento, quase fúnebre, alinhados com uma semântica agressiva, crua e profundamente irónica - que aborda quase invariavelmente temas relacionados com morte, guerra e exploração dos mais fracos -, consistente também com uma grande revolta relativamente ao estado de coisas no mundo; revolta essa que “fuzila” a esperança e, consequentemente, a utopia.

Como já dizia Thomas More Ao receber um mal os homens costumam anotá-lo em mármore. Se é um bem que recebem, escrevem-no no pó.” Uma utopia só poderá se realizar se todas as pessoas envolvidas estiverem de acordo com ela. Enquanto houver pessoas passivas e pessoas predatórias não será possível realizar materialmente a utopia civilizacional deste autor. Desta forma, nada mais parece restar, senão apenas a possibilidade de reconstituir infinitamente a utopia, ainda que sem esperança, a partir de imagens dispersas em fragmentos, que se alinham como uma constelação de estrelas, num imaginário que a assimetria dos versos concretiza. É por esse motivo que, na minha opinião, o Delmar faz parte de uma linhagem de poetas interpretadores de arquétipos, que precisam de esculpir esses mundos supremos, mesmo quando já não há esperança, como forma de fuga ao real, equilibrando, desta forma, a “dor do mundo” com o sublime surreal.



 (Vera Novo Fornelos)
16 de Dezembro de 2016
 Texto de apresentação do livro Fuzilaram a Utopia na Associação 25 de Abril

Sobre o lançamento de Fuzilaram a Utopia








segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Entre Dois Rios com Margens – (des)construção transcultural e (re)afirmação da moçambicanidade na poesia de Delmar Maia Gonçalves

Quando se fala de mestiçagem, temos a tendência para filtrar o conceito associando-o a uma mistura de duas raças, mas, em Delmar, este processo é mais complexo dado as suas fontes culturais originarem de diversos pontos geográficos e é por isso que associo a mestiçagem, neste autor, a um processo de (des)construção transcultural. Se as diversas influências culturais lhe trouxeram enriquecimento e um sentimento de libertação identitária, considerando-se um “cidadão do mundo”, também esta diversidade provocou uma espécie de caos fragmentado, uma identidade puzzle irresolúvel, que resultou numa (re)afirmação de uma identidade única, que o liga a um ponto geográfico específico, a moçambicanidade.

Quem conhece a obra de Delmar, facilmente se apercebe das dicotomias identitárias, que surgem tanto pela mestiçagem de africano e europeu, como se pode confirmar em E  eu sou eu “Aqui estou eu/ mestiço de negro e branco” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006) e O Inevitável  “Não tenho culpa de ter nascido mulato;/ não tenho culpa que a minha mãe negra/ tenha amado um branco” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); como pelas influências culturais absorvidas na diáspora “Repousam/ em mim/ velhos Imbondeiros/ comigo sentado/ à beira de uma Oliveira” (Entre dois rios com margens, 2013); e, também, como consequência dos processos de transculturação trazidos pela globalização, que contrastam com as suas raízes culturais ancestrais africanas. Por outro lado, também a sua vertente africana sofreu um processo de hibridização cultural, próprio da Zambézia, onde, além da diversidade cultural das diversas etnias africanas, se verificam influências culturais asiáticas, europeias e árabes, quer através do cinema e da culinária, quer pelas comunidades aí existentes que, desde sempre, se miscigenaram com os locais, provocando interessantes fenómenos de transferências culturais. Delmar, cuja avó resultava já de um casamento entre africana e indiano, tinha familiares tanto católicos, como muçulmanos, tanto africanos, como europeus e goeses. São estas influências que dão força a um sentimento de libertação identitária, considerando-se o autor um “cidadão do mundo” em poemas como Mestiço de Corpo Inteiro “Sou mestiço sim/mestiço de corpo inteiro/ mestiço no espírito e na carne/ mestiço das Áfricas/ das Américas/ da Ásia/ da Oceânia/ mestiço das Europas/ mestiço do mundo, mestiço do mundo inteiro!” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006), A Universalidade do Crente “Sou Cristão/ Vou a Roma/ ou Belém/ vou à Igreja/ Ajoelho-me e oro/ Leio a Bíblia Sagrada/ Invoco Jesus Cristo/ Rezo a Deus/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Muçulmano/ Vou a Meca ou Medina/ vou à Mesquita/ Leio o Alcorão/ Oro/ Invoco Muahmmad/ Rezo a Allah/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Judeu/ Vou a Telavive ou Jerusalém/ vou à Sinagoga/ Leio a Torá/ Oro/ Faço a Tahanum/ Invoco David e Salomão/ Rezo a Adonai/ Cumpro meu dever/ Retorno.// Sou Hindú/ Vou a Benares ou ao Ganges/ vou ao Templo/ Leio o Gita/ Medito e oro/ Purifico-me/ Invoco Krishna/ Rezo a Om e Brahma/ Cumpro meu dever/ Retorno.//Sou Homem Global/ Crente de Deus/ e estou/ em sua busca” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006), Mestiçagem “Somos resultado de uma adição/ Quando subtraímos esquecemo-nos/ que antes houve adição (…) Feitas as contas/ a adição só enriquece/ não empobrece” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); Arco-Íris Humano “Com tenra idade/ já me apercebera/ da beleza do mundo colorido./ Tentaram vendar-me os olhos para ver só a preto e branco./ Antecipadamente decidi fechar os olhos/ e viajar…/ Na viagem descobri/ a beleza do arco-íris./ Afinal o mundo não é/ só a preto e branco.” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); O meu Eu “O meu Eu/ são vários Eus/ por isso/ não falo de mim (…) Mas a realidade/ do meu Eu/ é tão minha/ como o é/ dos meus Eus” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006) e O Fragmento (Eu) “Os fragmentos/ de que sou/ composto/ reclamam/ um pedaço que seja/ da esfera do caos!” (Entre dois rios com margens, 2013). Por outro lado, é também a dicotomia negro/branco, uma espécie de entre-lugar abstracto dos mestiços, que se revela ao mesmo tempo próximo e distante de duas (ou mais) culturas, nunca se inscrevendo inteiramente em qualquer uma delas, por duas razões: primeiro, porque não quer renegar os seus antepassados; depois, porque ambos os lados o aproximam e repelem, o que nos remete para a relação de abstracção de Georg Simmel “esta combinação de proximidade e de distância, que confere ao estrangeiro o seu carácter de objectividade, encontra a sua expressão prática na natureza mais abstracta da relação que se pode ter com ele (…) entre proximidade e distância, surge uma tensão particular a partir do momento em que a consciência de que só o que é totalmente geral é comum faz sobressair o que não é comum”. Apesar de este autor se referir ao “estrangeiro”, eu penso que os mestiços também se podem inscrever nesta descrição de abstracção e, ao mesmo tempo, também no sentimento de estranheza, do mesmo autor, porque nunca são inteiramente aceites como pertencendo a uma comunidade e são, por isso, estranhos e ambíguos. Esta ambiguidade nunca é bem aceite porque nos desorienta em sociedade; a ambiguidade não está perto nem longe, não é má nem boa, é estranha. Essa relação de abstracção/estranheza está patente em diversos poemas de Delmar, numa dinâmica antonímica rítmica, pulsante como os batuques africanos, conforme se pode atestar em Zé Pecado e o dueto Preto e Branco “Zé Pecado/ foi para o lado dos negros/ e levou um empurrão/ com um clamor de vozes:/ - Sai daqui seu misto sem bandeira (…) Com lágrimas vertendo/ foi para o lado dos brancos onde ouviu um eco de vozes/ clamando: - Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!” (Mestiço de Corpo Inteiro, 2006); Irmão Branco, Irmão Negro “Quando tu/ irmão branco/ de coração umbiguista/ me procuras insultar/ chamando-me preto (…) Quanto a ti/ irmão negro/ de coração libertino/ do tamanho da África/ quando me procuras/ ofender/ chamando-me/ misto sem bandeira (…) Afinal…/ não são sempre/ aqueles que mais amamos/ que nos maltratam/ e fazem sofrer (?)”(Mestiço de corpo inteiro, 2006).

Todas estas influências culturais foram importantes para a construção de uma consciência universalista, mas, por outro lado, também fomentaram uma fragmentação identitária resultante principalmente da divisão racial branco/negro. Como mestiço, foi empurrado para um entre-lugar essencialista, que fica entre duas raças, duas culturas com fronteiras. Daí o título do seu livro “Entre dois rios com margens”, fazendo, numa primeira interpretação, referência ao Rio do Bons Sinais, em Quelimane, cidade onde nasceu, e ao Rio Tejo, em Lisboa, cidade onde vive. Mas numa análise mais profunda do sentimento mestiço e da sua relação do autor com a diáspora, apercebemo-nos que é uma metáfora da dicotomia rácico-cultural negro/branco, moçambicano/português, africano/europeu, moçambicano no país natal/moçambicano na diáspora. Esta dualidade rivalizada colocava-o nesse entre-lugar ambíguo e desorientador. Creio que foi por este motivo que se impôs um sentimento de pertença a Moçambique, a uma colectividade moçambicana composta por negros, brancos, mestiços, chineses, indianos, árabes, entre outros, conforme o poeta afirma no poema Moçambique Moçambicano “Na minha Pátria/ não há pretos nem brancos/ há Moçambicanos.// Na minha Pátria/ não há mestiços/ há Moçambicanos.// E Moçambicano/ é aquele que/ sente o pulsar da/ pátria,/ Moçambicano/ é aquele que a vive.” (Mestiço de corpo inteiro, 2006). É de citar também, que no III Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, realizado em 2010, Delmar afirma “O escritor moçambicano na diáspora também é um escritor moçambicano”. O tema que apresentou nesse encontro teve a finalidade de confrontar questões relacionadas com o desprezo aos intelectuais que vivem na diáspora, por parte daqueles que vivem em Moçambique, que muitas vezes os “descartam”, afirmando que os escritores que vivem em Portugal são portugueses ou que os mestiços não são moçambicanos. O sentimento de pertença moçambicano está, no entanto, para além da raça ou do lugar onde vivem, está numa ligação umbilical a um ponto geográfico específico que coincide com o local de nascimento, local esse onde bebeu as primeiras influências culturais, que deixaram marcas profundas no nível informal e inconsciente daquele que se sente moçambicano. A prova disso é a poesia dos autores moçambicanos na diáspora. E neste caso, do Delmar, cuja poesia é o meu objecto de estudo. Antes de mais, é de notar que ele faz uma série de referências a Moçambique, ao povo moçambicano e a diversos pontos geográficos específicos no país (como Chokwé, Nicoadala, Quelimane, Luabo, Homoíne, Licuári, Namacata, Gorongosa, Muxunguè, entre outros), que estão frequentemente (mas nem sempre) relacionados com a guerra civil (na sua poesia mais antiga – vd. Moçambique Novo, o Enigma, 2005 e Moçambiquizando, 2005) ou com os problemas actuais do país (na sua poesia mais recente), em que aborda questões como o racismo, a corrupção, a miséria, os confrontos mais recentes entre a RENAMO e a FRELIMO, de onde surge um sentimento de “dor do mundo”, uma espécie de “esperança magoada”, em que ele, como se fosse o solo da sua pátria, carrega em si todo o sofrimento do povo moçambicano e, ao mesmo tempo, de todos os povos do mundo. Estas referências podemos encontrar em poemas como Lá vai o General “Lá vai/ o General/ O General sem rosto/ mas perfeito/ sempre perfeito/ apesar de tudo/ não sente a falta/ dos cifrões/ não usa patentes/ não usa coldres/ não usa arma/ de pão não tem falta/ usa fato/ usa balalaica/ tem motorista!/ Pois…/ Lá vai o General/ O General sem rosto/ sem consciência/ sem remorsos!/ “Comandante do barco”/ rico embora/ mas profundamente “Nacionalista”!/ Não nacionalizou/ ele o dinheiro?” (Entre dois rios com margens, 2013) e Em Moçambique “Em Moçambique/ ainda há Corvos/ de mau agoiro/ com sorrisos de Hienas/ e uma Voraz apetite de Abutres” , em que aborda a questão da corrupção; depois, temos Luabo “Em Luabo/ plantaram-se tumbas/ no lugar/ do paraíso açucarado” (Entre dois rios com margens, 2013) e Homoíne “Em Homoíne/ destilam-se lágrimas/ no vapor/ do tempo/ das balas” (Entre dois rios com margens, 2013), que fazem alusão aos confrontos político-militares mais recentes; também é de referir Pudessem “Pudessem os bons compreender/ que o seu silêncio é também/ o suicídio das almas vindouras (…) Pudessem os bons motivar-se/ para a acção contra a ditadura da passividade/ Pudessem os bons gritar/ bem alto – Basta!” (Entre dois rios com margens, 2013), que nos remete para a célebre frase de Einstein “O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que vêem e deixam o mal ser feito”; e, finalmente, Escrita “Escrevo para exorcizar a dor (…) a dor do mundo!/ Não nasci por acaso” (Entre dois rios com margens, 2013), Dor “Minha dor/ é o somatório/ de todas as dores.// Sinto a intensidade/ da dor/ na pedra/ do meu vazio” e África “Já que/ o velho Imbomdeiro/ adormeceu ressequido/ em quantas partes/ dividiremos/ o Pão da nossa Fome?” (Entre dois rios com margens, 2013), em que é bem explícito o sentimento de “dor do mundo” do poeta.

Por outro lado, são também evidentes as influências da Negritude na construção da sua poesia e estão profundamente enraizadas na sua identidade moçambicana. Antes de mais, gostaria de referir uma citação de Mário Pinto de Andrade sobre a Negritude em Francisco José Tenreiro “a negritude põe de lado facções políticas e patriotismos (…) e repousa numa consciência em vias de renascimento, (…) é estruturalmente claro e directo nas suas falas, amargo e duro por vezes – a dureza necessária para que os ouvidos de todos a possam perceber plena”. Essa dureza, essas falas directas e claras e, ao mesmo tempo, amargas não só estão presentes na poesia do Delmar como são marcas estruturais muito importantes na sua poesia. Vejamos o que diz Amadeu Ferreira no prefácio a Entre dois rios com margens, 2013 “Apresenta-nos Delmar Maia Gonçalves um poemário com dezenas de curtas explosões, poemas que apenas duram o tempo de um clarão. As palavras a condizer com essa concentração luminosa, são um grito que oscila entre esperança e raiva, dor e denúncia, vida e morte, pão e fome, o bem e o mal, o paraíso e o inferno, num dualismo que atravessa toda a obra (…) Esta não é pois uma poesia neutra ou fora do mundo, bem ao invés, ergue-se como um espinho espetado no poeta, em toda ela perpassando denúncias sem fim”. A força semântica dos substantivos “silêncio”, “morte”, “raiva”, “dor”, “denúncia”, “fome”, leva-nos a concluir que o autor imprime na sua poesia essa dureza, essa amargura de que Mário Pinto de Andrade falou. Evidentemente que estas características não são por si só marcas da Negritude, mas sim, quando em conjunto com a tese sartreana sobre a negritude, de onde Albert Franklin extraiu os seguintes pontos de articulação: racismo anti-racista (patente em quase todos os poemas de Delmar sobre a condição do mestiço); sentimento do colectivismo (o sentimento de pertença moçambicano); o ritmo (que está presente na dualidade constante da sua poesia, conferindo-lhe uma similitude ao som dos batuques – “aqui estou eu” tum tum tum “mestiço de negro e branco” tum tum tum “Severo e brando” tum tum “Obstinado e ocioso” tum tum “Modesto e orgulhoso” tum tum “E eu sou eu” tum tum tum); concepção sexual (que encontramos no erotismo revelado em grande parte da sua poesia contida no livro Afrozambeziando Ninfas e Deusas, 2006); comunicação com a natureza (fazendo frequente recurso a elementos da natureza como “imbomdeiros”, “selva”, “hienas”, “lobos”, “corvos”, “rio”, “mar”, “lua”, “crocodilos”, “abutres”, “água”, “terra”, entre outros); culto dos antepassados (tomo como exemplo o poema Sonho Ancestral publicado nos Cadernos Moçambicanos nº1, 2004 ou em Nostalgia Africana, Moçambiquizando, 2006).

É por causa destas características evidentes de negritude, que o colocam em África, e da sua intrínseca ligação a Moçambique (veja-se ainda que no poema Voz das Conchas (Entre dois rios com margens, 2013) em que o poeta acredita que a sua ligação a Moçambique é tão forte que consegue, através de uma concha, fazer a sua voz ouvir-se no seu país, mesmo estando na diáspora) que acredito que Delmar só pode fazer parte da literatura moçambicana e nunca de uma literatura europeia, apesar de ser mestiço e de viver num país europeu. As suas marcas, o seu pensamento e a sua identidade estão de tal forma enraizados no seu país de origem, que se justifica inteiramente a sua (re)afirmação da moçambicanidade.



Vera Novo Fornelos
Junho, 2016
in "Milandos da Diáspora 2016"
Apresentado no IX Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora - 2016

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Memórias vivas da poesia moçambicana


Já disse poesia que encha o Índico. A larga experiência vocacionada a arte de falar coisas iguais de forma diferente, torna Delmar um mestre inconfundível. Também escreve, e alguns dos seus leitores e seguidores são unânimes ao afirmar que “um pouco de inconformismo” vigora sobre as suas palavras.
É poeta revolucionário, mas, a sua escrita não produz desagrado ou agitação; pelo contrário produz dúvida sobre o que a sociedade pensa ser normal, e deixa muito que pensar. Certas vezes entende-se que o poema escrito, encontra a perfeição na poesia dita.
Dos seus favoritos destacam-se temas relacionados aos conflitos sociais, étnicos, raciais, amor, saudade e outros. E, de saudade o autor inspira-se quando se lembra da terra natal. As suas prosas são raras, mas, de qualidade impar, aliás, há mais poema do que prosa poética de Delmar disponíveis.
Considerado como bastonário das antologias lusófonas e manilha de ligação entre vários poetas moçambicanos e outros falantes da língua portuguesa. Tem vindo a inspirar jovens escritores e ocupa um lugar de destaque como selecionador da equipa de poetas moçambicanos: Delmar é poesia!
E para celebrar:
"Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu."
Delmar Maia Gonçalves



Hosten Yassine Ali 

Um silêncio colado à língua - ‘imigrantes’ afro-moçambicanos em Portugal

As memórias querem-se nessa periferia
onde as podemos controlar; passamos bem sem
os sobressaltos da sua rebeldia”.
João P. Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez

Quantas vezes pensamos no retorno, no passado, e permanecemos quietos, mudos, perante um silêncio colado aos dias que passam, quotidianamente, pelo calendário das nossas vidas e afectos? Quantos rostos e vozes serão necessários para construirmos uma imagem possível e verdadeira deste Portugal pós-colonial?
Percorro exaustivamente estas últimas questões, no percurso do meu trabalho de investigação, que desenvolvo no âmbito do meu pós-doutoramento, sob o título “African Mozambican Immigrants in the former ‘motherland’: The portrait of a postcolonial Portugal”1. Indubitavelmente, os estudos pós-coloniais de expressão/língua portuguesa têm auferido de uma enorme riqueza e profundidade através das análises críticas da literatura pós-descolonização. Olhar a sociedade pós-25 de Abril pela lente literária tem sido para muitos estudiosos e pensadores o quanto basta para um entendimento, supostamente justo e equilibrado sobre o que é hoje o Portugal que surge após a guerra colonial, a derrocada do Estado Novo e a emergência da democracia. Contudo, a resposta não reside, somente, penso eu, nos registos literários, ficcionais e poéticos dos sujeitos, alguns deles observadores-participantes, que estiveram, viveram e experienciaram o modo de ser português em África. A observação humana dos outros, não na sua formulação e conceptualização estereotipada ou mesmo estigmatizada, necessita de uma descida aos universos do íntimo, do subjectivo, das memórias, das narrativas de vida e de identidade, e das trajectórias vivenciais de cada um. Não quero, aqui, ignorar os estudos já realizados por Miguel Vale de Almeida, Boaventura Sousa Santos, Cláudia Castelo, Manuela Ribeiro Sanches, entre outros. Mas falta esta outra óptica mais quotidiana, discreta mas sôfrega das vozes do dia-a-dia.
Como pensar este pós-colonialismo, que chamarei, do quotidiano2? O que é que este nos diz daqueles que oriundos das antigas colónias portuguesas, criaram como faróis das suas vidas a integração social, profissional e familiar? O que é que estas pessoas sentem, e que percepções nos oferecem sobre si e sobre o retrato da pós-colonialidade portuguesa? Ao longo da minha pesquisa sobre ‘imigrantes’ afro-moçambicanos em Portugal que, outrora, eram designados na hierarquia colonialista portuguesa como assimilados e que, após a independência política em Moçambique (25 de Junho, 1975), optaram por prosseguir com as suas vidas no contexto português da descolonização, tenho compilado registos humanos e narrativos que, gritantemente, mostram a persistência de um sentimento de exílio pátrio e identitário. De facto, ao acompanhar estes moçambicanos nas suas vidas e memórias, observo que a identidade não é mais do que uma luta pela sobrevivência do eu-individual e do eu com uma identificação mais alargada ao espaço familiar. Para muitos destes sujeitos, ser português ou moçambicano representa uma vivência de limbo, eivada de ambiguidades históricas, culturais e sociais. Relembre-se que, na praxis colonial portuguesa, o assimilado não era classificado como indígena, mas também não detinha os plenos direitos de cidadania de um(a) português(a) nesta arquitectura social. O limbo, a ambiguidade assombram estas vivências, ainda hoje, nas suas vidas. Veja-se, por exemplo, este desassossego identitário na voz poética de Delmar Gonçalves, moçambicano residente em Portugal:

Mestiço
(poema dedicado a Noémia de Sousa e
José Craveirinha)
Que condição
esta de ser o
que sou…!
Para ser africano pleno
tenho de admitir ser
o que não sou
Para ser europeu de corpo
inteiro
tenho de fingir e
procurar ser o que
não sou.
Que dilema este
de ser
o que sou
sendo o que não sou.
(Gonçalves, 2006: 59)3
Recordo, na linha da anterior reflexão poética sobre o eu fragmentado e disseminado, um encontro com uma senhora moçambicana que me dizia: “os próprios moçambicanos em Portugal, não vivem como moçambicanos, vivem como portugueses; …eles não se identificam como portugueses, têm uma parte em que gostam das coisas em Portugal, como seja de comer, da vida social e das condições de viver uma vida boa que, possivelmente, em Moçambique muitos perderam. (…) a nível dos valores moçambicanos, de identidade, não há uma identificação com Moçambique, as pessoas não se identificam com os problemas que existem em Moçambique … estão sem identidade”(Khan, 2004: 204)4. Este sujeito ambíguo projecta nas suas referências culturais e nos seus desabafos narrativos um titubeante trabalho de memória, onde o diálogo entre passado e presente se apresenta como fechado, trancado por uma necessidade de olhar para um futuro vigiado por questões relacionadas com a estabilidade familiar e profissional. Para muitos dos entrevistados a memória é um tempo que passou, o lugar do não-dito, dos murmúrios que, ironicamente, se consolida, também, com a preguiça que a sociedade portuguesa demonstra ao empurrar para as margens a presença destes sujeitos no espaço do tecido nacional e pátrio pós-colonial português. De facto, partindo destas observações urge-me provocar a condição pós-colonial portuguesa, ao questionar-me se esta não se encontra, ainda, debruçada sobre um luto adiado do seu passado colonial, da sua insistência em olhar o pretérito de Portugal em África como forma de resistir a uma cronologia histórica. No meu entender, o rosto da pós-colonialidade portuguesa deve, isso sim, concentrar-se em torno de um avanço, este concretizando-se nas mentes e acções dos actores sociais. Consolido esta conclusão, atentando nas palavras de Isabel Allegro de Magalhães quando observa: “no Portugal pós-25 de Abril, tanto são as margens sociais do tecido nacional, conformadas pelos cidadãos de quem não se ouve a voz … como por aqueles que passaram a fazer parte integrante do tecido nacional quando deixaram as antigas colónias (ou territórios sob a administração portuguesa), hoje países autónomos e que por razões económicas vieram para o país ex-colonizador” (Magalhães, 2001: 310)5.

Artigo originalmente publicado na revista Jogos Sem Fronteiras, ed. Antipáticas 2008
  • 1.Deste trabalho pós-doutoral resultará um documentário e um livro. Coordenado pelas Profªs Hilary Owen (Universidade de Manchester) e Paula Meneses (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra), pretende-se com estes registos visual e escrito compilar reflexões, testemunhos, memórias, narrativas e diferentes pontos de vista sobre o Portugal pós-colonial, ora através de uma abordagem do pós-colonialismo do quotidiano, ora pela via do pós-colonialismo de investigação ou académico. Nesse sentido, encontram-se a ser entrevistados: por um lado, os moçambicanos(as) que num tempo colonial eram designados por assimilados e que, após a independência de Moçambique, optaram por re-organizar as suas vidas no território do antigo ex-colonizador, captando neste corpus humano as suas vivências, memórias, narrativas e identidades sob uma perspectiva diacrónica e sincrónica, isto é, contextualizando os seus registos em parâmetros temporais, sociais e pessoais. Por outro, convida-se para esta arena reflexiva escritores, investigadores e pensadores portugueses que, ao longo, dos seus trabalhos tenham pensado a África portuguesa quer na história social, mnemónica, cultural, política deste Portugal pós-colonial. Até ao momento, foram entrevistados: Inocência Mata, Miguel Vale de Almeida, Adriano Moreira, Lídia Jorge, Hélder Macedo, João Pina Cabral, Rosa Cabecinhas, Maria João Seixas, entre outros.
  • 2.Ainda que esta definição se encontre numa nomenclatura precoce, penso o pós-colonialismo do quotidiano como a abordagem às realidades diárias, dos comportamentos sociais, do universo dos afectos, das memórias e narrativas vivenciais que os sujeitos habitantes em Portugal vão expressando, a partir da sua interacção com a sociedade portuguesa. Este é, no fundo, o pós-colonialismo do dia-a-dia de cada cidadão(ã) deste país que, outrora, foi império, ou como bem observa Margarida Calafate Ribeiro (2004) um império com “imaginação de centro”: RIBEIRO, Margarida C. ‘Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo na Literatura Portuguesa’. Porto: Edições Afrontamento, 2004.
  • 3.Gonçalves, Delmar. Mestiço de Corpo Inteiro. Lisboa, Editorial Minerva, 2006.
  • 4.Este registo foi retirado de uma entrevista no decorrer do meu trabalho de doutoramento realizado no Reino Unido sobre moçambicanos que, maioritariamente, viviam em Londres, sob o título de “African Mozambican Immigrants: Narrative of Immigration and Identity, and Acculturation Studies in Portugal and England” (University of Warwick, Centre for Research in Ethnic Relations, 2004). O trabalho teve como objectivo acompanhar os participantes nas suas trajectórias de vida desde Moçambique até ao segundo projecto de emigração, para o Reino Unido, sendo que o primeiro foi a passagem e permanência, durante muitos anos, em Portugal. A insatisfação de muitos, a frustração profissional e social, despoletaram lógicas de vontades individual e familiar que se projectaram numa saída de Portugal, e num novo recomeço em Londres.
  • 5.Magalhães, Isabel Allegro. ‘Capelas Imperfeitas: Configurações Literárias da identidade portuguesa’. Entre ser e estar – Raízes, Percursos e Discursos da Identidade, in Maria Irene Ramalho e António Sousa Ribeiro (orgs.). Porto, Edições Afrontamento, 2001, pp.307-348. Veja-se nesta linha de pensamento relativa à condição pós-colonial portuguesa, as observações de Inocência Mata: “é inegável que os africanos trouxeram para a ‘civilização’ portuguesa novos valores, hábitos, costumes e tradições culturais (…). Porém, nesse processo de enriquecimento da cultura portuguesa nem sempre são entendidos e valorizados os sujeitos portadores dos sinais culturais dessa celebrada contribuição que têm sido omitidos do “grande relato da nação” portuguesa. Trinta anos depois do desmantelamento político do império colonial português, o discurso da nação (…) continua a textualizar os africanos aqui residentes e seus descendentes como os outros!” (Mata, 2006, p.289): MATA, Inocência. ‘Estranhos em permanência: a negociação portuguesa na pós-colonialidade’. In Manuela Ribeiro Sanches (org.): Portugal não é um país pequeno. Lisboa: Ed. Cotovia, 2006, p.285-315.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Em torno do verso: uma leitura do Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, a partir do que dizem seus paratextos - Stéphanie Paes



Em torno do verso: uma leitura do Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, a partir do que dizem seus paratextos
Stéphanie Paes



O texto não tem existência autônoma, ele “é composto por um mundo que ainda há de ser identificado e que é esboçado de modo a incitar o leitor a imaginá-lo e, por fim, a interpretá-lo.”  É no e pelo ato de leitura que o arranjo proposto pelo autor se converte em sentido(s).

Entretanto, quando abrigado em um livro, não é apenas o texto do autor – a sequência de períodos, parágrafos, versos e estrofes que engendra, que aqui identificarei por texto autoral – que fornece ao leitor elementos para a construção de seu(s) sentido(s). “Um certo número de produções, verbais ou não” cerca o texto autoral “para apresentá-lo, [...] para torná-lo presente, para garantir sua presença no mundo, sua ‘recepção’”.  Essas produções, às quais Gerard Genette dá o nome de paratextos, produzem “uma ação sobre o público, a serviço [...] de uma melhor acolhida do texto [autoral] e de uma leitura mais pertinente [...] aos olhos do autor e seus aliados”;  e assim orientam, em certa medida, o processo de produção dos sentidos da obra. São títulos, ilustrações, capa, nome do autor, prefácio, posfácio, epígrafe, enfim, toda a informação que se encontra na periferia do texto autoral. 

Com base nessas premissas, expõe-se uma leitura da obra Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, em edição de 2006 do Editorial Minerva, de Lisboa.


Percurso de leitura
O contato mais imediato com a antologia de poemas Mestiço de corpo inteiro, de Delmar Maia Gonçalves, já é bastante revelador do teor dos textos que se encontrará durante a leitura. Na capa da obra, título e ilustração disputam a atenção de quem a pega para ler e introduz um cenário de conflito, ou melhor, de crise.

Na parte superior da capa, logo abaixo do nome do autor – inscrito em letras capitais de corpo pequeno e cor preta, de uma fonte não serifada e delgada, o que lhe confere bastante suavidade – encontra-se o título Mestiço de corpo inteiro sobre um plano de fundo liso em tom de amarelo bem claro, no qual repousam todos os demais elementos da capa (nome do autor, ilustração, logotipo e nome da editora). Também inteiramente em letras maiúsculas, em uma fonte serifada ligeiramente robusta pela aplicação de negrito, o nome da obra, que à exceção da preposição de figura toda com corpo de mesmo tamanho, aparece em um tom de azul ligeiramente escuro e bem suave.

É significativo observar que as cores utilizadas para o fundo da capa e o título da obra são complementares, ou seja, opostas, altamente contrastantes. Colocá-las lado a lado produz um efeito harmônico que ao mesmo tempo contém uma tensão, pela oposição das cores. Este mesmo efeito será reproduzido na imagem da capa, da qual se falará adiante. Passando do aspecto formal para o discursivo, tem-se no título da obra a figura do mestiço, um indivíduo fruto da mistura de raças, que, ao afirmar-se “mestiço de corpo inteiro” aponta para sua identificação total com esta condição, um sujeito integralmente miscigenado em sua percepção de si mesmo, uma mistura perfeita e total de diferenças.

Em contrapartida, visualizando-se a pintura de David Levy Lima que ilustra a capa (e, por extensão, a essência do livro, assim como o título resume a essência da mensagem que se propõe passar através dele), percebe-se a figura de um mestiço, por seus traços característicos, que, em oposição ao dito no título, aparece cindido por um efeito de sombra: o lado direito, iluminado e, portanto, mais claro, e o lado esquerdo, enegrecido pela sombra. A projeção dessa sombra produz um sujeito divido, bipartido, situação que associada à sua condição de mestiço, pode-se interpretar como a cisão dos elementos que geram esta mestiçagem (elementos negro e branco, no caso) e a irreconciliabilidade dessas duas metades que formam o sujeito em questão, ainda que a cisão não seja total, uma vez que as partes se interpenetram em certa medida. O emprego de cores complementares na composição da imagem (tons de amarelo, laranja e azul) contribuem para o efeito de oposição.

Ainda, o confronto da imagem com o título contribui para este efeito de contraste: um sujeito que se afirma mestiço em sua integralidade e um que não consegue estabelecer esta fusão, indicando, possivelmente, que este sujeito vive o conflito entre se afirmar mestiço e a impossibilidade de fazê-lo efetivamente. O uso de uma sombra para estabelecer a divisão na imagem e o aspecto aparentemente melancólico do sujeito retratado reforçam esta crise. Mas o que a provocaria? O que impediria este indivíduo de viver sua mestiçagem em sua plenitude?

Ainda que o sumário não seja de leitura obrigatória e costume ser consultado apenas quando se precisa encontrar um ponto específico do texto, é relevante analisar o desta obra de Delmar Maia Gonçalves, pois ele apresenta características peculiares. Assim como os títulos dos poemas e de outras produções pré e pós-textuais que se costuma ver em sumários, embora com variações de obra a obra (prefácio, biografia, posfácio...), figuram no sumário de Mestiço de corpo inteiro, e em mesmo nível hierárquico dos poemas, as epígrafes, identificadas como “citações”, e as ilustrações de Isabel Carreira e Filipa Gonçalves. Pode-se supor, a partir da observância desse fato, que essas produções paratextuais têm o mesmo peso dos poemas para a leitura do livro, isto é, elas significam tanto quanto os versos.

Após alguns pré-textuais que não serão abordados aqui, encontram-se as epígrafes, 10 no total, duas do próprio autor. O conteúdo dessas epígrafes (salvo a segunda, que parece uma análise crítica, possivelmente da poética do artista) parece demonstrar posturas ideológicas e/ou reflexões filosóficas sobre temas como a existência, o pertencimento, as relações humanas e a mestiçagem. “Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar e falar quando é preciso calar-se” (provérbio persa) e “a alma multiculturalista, espiritualmente superior, acabará por fazer entender todos os homens e nações” (Kumarka Prakhasmani) são duas delas. É ainda significativo observar as diversas origens desses discursos: um provérbio persa, versos de poetas de culturas e origens diversas, citações de um cientista, de um sociólogo, enfim, discursos de vários cantos do mundo, ocidentais e orientais, congregados num mesmo espaço, como no intuito de celebrar, através dessa seleção, o multiculturalismo defendido por Prakhasmani.

Uma das funções da epígrafe consiste em traçar “um comentário do texto [autoral], cujo significado ela precisa ou ressalta indiretamente.”  Considerando-se as impressões provocadas pela capa, lê-se a sequência de epígrafes do livro como prenúncio do que se encontrará ao se avançar na leitura, como sugere a citação da jornalista Rita Pablo: “uma vontade gritante de dar sentido à mestiçagem”. Não demorará muito para que esta suspeita seja confirmada pelos poemas.

Ainda que trate de outras temáticas, como a mulher, a “mátria” Moçambique, a ancestralidade e mesmo a escravidão, a questão central do livro Mestiço de corpo inteiro é o conflito de um homem com sua condição de mestiço, a busca por encontrar o seu lugar, seu pertencimento em um mundo de grupos tão bem definidos: “Não sabia que/ para me reivindicar/ de um berço/ tinha de ter/ uma certa cor/ convencionada/ pelos homens.” 

O primeiro poema do livro introduz poeticamente sua situação de instabilidade identitária. O eu-lírico, classificando-se como “Náufrago africano”, título do poema, declara: “Sou um náufrago/ em busca/ de porto seguro”.  O náufrago é um indivíduo que não chegou em terra firme, que se encontra à deriva. Sendo a terra um signo de pertencimento, de enraizamento, estar à deriva é não pertencer a lugar algum. A brevidade do poema e mesmo dos versos individualmente, associado ao seu conteúdo, produzem um tom de desabafo melancólico de um homem que procura seu lugar. Quando se coloca em diálogo este poema com a epígrafe de Séneca, “quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe é favorável”, pode-se apreender que a busca deste homem por seu pertencimento deve ser interior, que quando encontrá-lo dentro de si as condições de sua inclusão no grupo se tornarão favoráveis. Será?

O que se observa ao se avançar pela obra de Delmar Maia Gonçalves é a árdua luta de um sujeito para unificar a multiplicidade que constitui a sua mestiçagem, a fim de apaziguar as polaridades que o impedem de se constituir em ser integral, em mestiço de corpo inteiro.

Nesse sentido a imagem, de Isabel Carreira que se encontra na página 19 é emblemática. Nela, os contornos de dois indivíduos idênticos, um negro e um branco, se olham e se dão as mãos. Em contrapartida, seus pés estão voltados para trás. Percebe-se por esta imagem a irreconciliabilidade dos elementos negro e branco na formação identitária do indivíduo, que se esforça para unir os dois elementos (mãos dadas), mas se depara com a recusa desses elementos em se mesclarem (pés voltados para trás). A imagem pode conotar também a tentativa de promover a igualdade entre opostos, defendida em alguns poemas.

A busca por se constituir “mestiço de corpo inteiro” se dá, nos poemas do escritor moçambicano, em dois movimentos principais e conflitantes, ainda que cheios de nuances, como acontece em toda grande questão humana: por um lado, o eu-lírico afirma sua mestiçagem, lutando pela mútua compreensão entre os diversos povos do mundo e pela aceitação de negros e brancos de sua condição de mestiço; por outro, vive a crise identitária de ser mestiço, de não poder escolher um lado e, portanto, não pertencer a nenhum. Ao mesmo tempo em que se defende enquanto “mestiço de corpo inteiro”, frase dita não só no título como em mais de um poema,  sente-se incomodado com a sua condição e questiona com frequência sua identidade. Entretanto, respondendo à questão feita acima quanto a se a descoberta de seu pertencimento dependeria de um esforço interior do indivíduo, o que se percebe na poesia de Delmar Maia Gonçalves é que a sensação de deslocamento sentida por seu eu-lírico seria mais fruto das pressões dos grupos circundantes para que este “escolha um lado”, que, evidentemente, ele não pode escolher, da rejeição dos outros da sua condição de mestiço do que propriamente por uma falta por parte do eu-lírico de aceitar a si mesmo. Ele, enquanto “mestiço de corpo inteiro”, mistura integral de etnias e culturas, não pode pertencer se o mundo estiver cindido e reivindicar essa cisão.

Ainda que não haja uma divisão explícita entre os dois movimentos principais do eu-lírico no livro, é perceptível uma concentração, em sua primeira parte, de poemas que defendam e exaltem a mestiçagem. Em “And I am who I am”, primeiro poema que trata explicitamente da questão da mestiçagem, o eu-lírico se declara mais do que híbrido de branco e negro (“hybrid from black and white”), talvez um indivíduo regido pela lei dos opostos (“Perhaps I am ruled by/ The law of oposites”) ou uma simbiose de antíteses (“a symbiosis of antithesis”).  Ainda que o autor afirme a sua individualidade, o emprego de um advérbio de dúvida (talvez) aponta para a busca, empreendida pela voz do poema, por se definir enquanto indivíduo. Espelhado a este poema encontra-se “L’énigme”, que já traz o índice da dúvida em seu título. No poema o autor denuncia o olhar enviesado do outro para si (“Je suis un noir pour les blancs/ Et blanc pour les noirs”) , mas se defende dizendo ser apenas um mestiço, uma adição de negro e branco (“Je sais seulement qui je suis un métis/ [...] Une addition de noir et blanc”. 

Curioso perceber que há poemas em três línguas no livro de Delmar Maia Gonçalves. Essa opção descentraliza o discurso e sugere uma universalidade da questão da mestiçagem, e ainda ajuda a reforçar a hibridização do eu-lírico, que escreve para o seu Eu “que é vários Eus”,  se quisermos pensar na voz do livro como sendo una. Mais ao final do livro leem-se as versões em português desses dois poemas: “E eu sou eu”, página 62, acompanhado do retrato de um mestiço, e “O enigma”, na página 71.

Em “O inevitável”, defende-se de acusações afirmando não ter culpa de “ter nascido mulato”, de ser “fruto do pecado de um amor proibido”.  “Mulato sou, mulato serei!”,  conclui ele; afinal, como lembra em “Dança ancestral da alma”, não pode renunciar a sua ancestralidade: “porque não posso jamais renegar um pouco que seja dos meus glóbulos/ sanguíneos negróides e caucasoides”. 

Na página 6, um desenho de Filipa Gonçalves ilustra bem a força dessa herança. Nela vê-se o que parece ser uma cabeça de tripla face: ao centro, meio rosto de um mestiço; no lado esquerdo, o perfil do rosto de um negro; à direita, o perfil de um rosto branco. Observa-se ainda, semifundido entre o rosto negro e o mestiço um berimbau, e entre este segundo rosto e o branco, um violino, talvez apresentando o elemento cultural como importante mantenedor dos vínculos do mestiço com sua ancestralidade.

Em um segundo momento da obra tornam-se mais recorrentes os poemas que abordam o conflito de ser mestiço, tanto no que diz respeito à não aceitação desses sujeitos por parte dos grupos étnicos que dão origem à mistura, quanto ao conflito identitário que sofrem esses sujeitos como consequência dessa rejeição.

Em “Zé Pecado e o dueto preto e branco”, o eu-lírico, que tem em sua pele e em seu nome (sua identidade) a marca do “pecado de um amor proibido” de que fala a voz de “O inevitável”,  tenta se aproximar dos negros e é rechaçado: “— Sai daqui seu misto sem bandeira!”  Tenta, então, estabelecer relações com os brancos, mas recebe o mesmo tratamento: “— Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!”  Jamusse, no poema que leva o seu nome, tenta fazer o mesmo movimento, e também é rejeitado: “Vozes de Brancos e Negros/ vozes de raiva e ódio/ Gritos coléricos surgiram/ Vai-te embora misto aborrecido!/ Vai-te embora misto sem bandeira!/ Vai-te embora preto!/ Vai para a tua Terra!”  Mas qual seria a sua Terra?

A ilustração de Filipa Gonçalves que se encontra à página 45 do livro é icônica desse processo de rejeição. Ao centro se observa a imagem de um mestiço com feição séria, em traços bem realistas; à direita, rostos brancos, em traços menos realistas, olham para o mestiço com feições desfiguradas de ódio e reprovação, com feições que se assemelham a carrancas; à esquerda, rostos traçados com mesmo estilo, porém negros, também se voltam para o mestiço com expressões furiosas. A imagem demonstra bem a rejeição sofrida por um mestiço pelos membros das raças que fazem parte da sua constituição ante a impossibilidade de tal indivíduo escolher um lado e, consequentemente, integrar um desses grupos.

Sem conseguir encontrar o seu lugar de pertencimento, desabafa em “Mestiço”: “Que condição/ esta de ser o/ que sou...!/ Para ser africano pleno/ tenho de admitir ser/ o que não sou/ Para ser europeu de corpo/ inteiro/ tenho de fingir e/ procurar ser o que/ não sou.”  “Não há drama maior/ que viver com a tristeza/ da rejeição”, arremata em “O mestiço”. 

É imperativo que se escolha um lado. É impossível escolher um lado. Diante deste dilema insolúvel, uma das saídas do eu-lírico é ironizar a situação a que os outros o submetem: “Que sociedade teria/ espaço para um banido?/ [...] E por isso vos peço, por favor/ brancos e negros!/ Decretem o fim dos mestiços/ Promulguem e aprovem a lei/ anti-mestiçagem!/ Mas céus! Não sem antes/ exterminarem os seus criadores!” 

Mas esse gesto crítico não é suficiente para resolver sua crise identitária. Procura, então, encontrar sua identidade na pátria, grupo do qual pode pertencer à despeito de sua cor: “Na minha Pátria/ não há pretos nem brancos/ há Moçambicanos.// Na minha Pátria/ não há mestiços/ há Moçambicanos.// [...] E Moçambicano/ é aquele que/ sente o pulsar da/ pátria,/ Moçambicano/ é aquele que a vive.”  O fato de escrever moçambicano e pátria com iniciais maiúsculas, enquanto os outros grupos (pretos, brancos, mestiços...) têm seus nomes grafados com inicial minúscula denota a superioridade da pátria e da “moçambiquedade” sobre os segmentos étnicos.

Entretanto, em poemas seguintes, o conflito identitário do eu-lírico reaparece, e ele percebe inclusive que sua “africanidade” e “moçambiquedade” teriam de ser defendidas, não dos brancos, não dos negros, mas dos povos de outras nações, possivelmente de outras nações lusófonas, e conclui: “Ninguém compreende/ Minha singularidade”. 

Tenta, então, uma última cartada, defendida na epígrafe de Kumarka Prakhasmani, qual seja, a multiculturalidade: “Não nos podemos dividir mais,/ porque somos resultado/ da multiplicação/ que resulta em humanidade”, reflete em “Mestiçagem”.  E afirma no poema que dá título ao livro: “Sou mestiço sim/ mestiço de corpo inteiro/ mestiço no espírito e na carne/ mestiço das Áfricas, das Américas,/ da Ásia, da Oceania, mestiço das Europas/ mestiço do mundo, mestiço do mundo inteiro”. 

De qualquer forma, embora a crença na multiculturalidade possa resolver sua relação consigo mesmo, sua crise identitária não fica de todo sanada, permanecendo em suspenso o dilema do seu pertencimento, em uma terra onde “os homens/ se excluem/ conforme as conveniências.”  Permanece, assim, o eu-lírico à deriva, “em busca de porto seguro”... 
Antes de fechar o livro...

O texto forjado por um autor é um esboço de “um mundo que ainda há de ser identificado”,  imaginado e interpretado por outra instância, o leitor, a quem cabe a decisão de concluir a tarefa ou deixá-la em aberto. 

Quando se trata de um mundo encerrado em um livro, gira em torno dele uma série de produções textuais, verbais ou não, que interferem no jogo entre o autor e o leitor, fornecendo a esse último elemento que, tendo ele consciência ou não, o ajudarão a dar os retoques finais na obra rascunhada pelo autor: são os paratextos, segundo termo cunhado por Gerard Genette.

Em Mestiço de corpo inteiro, os paratextos que circundam os versos de Delmar Maia Gonçalves, desde a capa às ilustrações internas, estão engajados em criar o clima de tensão que ecoa nos poemas. Do jogo de oposição de cores e discursos da capa, passamos para uma lista de epígrafes com teor ideológico que prenunciam as teses que serão defendidas pelo(s) eu-lírico(s) dos textos poéticos. As ilustrações reproduzem, em outra linguagem, a crise identitária vivenciada pelo(s) mestiço(s) que fala(m) na obra. Por fim, embora fora da ordem de sua recepção, o título da obra e também os de vários poemas (“Mestiço”/”Metisse”, “Mestiçagem”, “Ser mestiço é...”, entre outros) centram a temática da obra na questão da mestiçagem.

Todos esses elementos direcionam a leitura para um caminho, que talvez confirme, ou amplie, ou reduza as possibilidades de leitura que o texto sozinho incitaria. Qual seria a recepção dos poemas se eles estivessem livres de todo esse aparato? Esta também é uma questão insolúvel, uma vez que já se teve contato com os paratextos da obra. Esses instrumentos podem até limitar as possibilidades de leitura, mas certamente não as encerram. Há ainda textos outros, extralivro, que dizem respeito a cada leitor, e a um mesmo leitor em momentos distintos, que fazem válida a premissa: “há tantas leituras quantos são os leitores”.  Esta aqui é apenas uma.





Referências

Textos teóricos

GENETTE, Gérard. As epígrafes. In: ______. Paratextos editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. p. 131-144. (Artes do Livro, 7)

GENETTE, Gérard. Introdução. In: ______. Paratextos editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. p. 9-20. (Artes do Livro, 7)

ISER, Wolfgang. O jogo do texto. In: LIMA, Luiz Costa (Org.). A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. p. 105-118.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Primeiros Passos)




Textos literários

GONÇALVES, Delmar Maia. And I am who I am. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 22.

GONÇALVES, Delmar Maia. Dança ancestral da alma. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 29.

GONÇALVES, Delmar Maia. Jamusse. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 60.

GONÇALVES, Delmar Maia. L’énigme. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 23.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiçagem. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 49.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiço de corpo inteiro. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 61.

GONÇALVES, Delmar Maia. Mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 59.

GONÇALVES, Delmar Maia. Moçambique moçambicano. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 75.

GONÇALVES, Delmar Maia. Monólogo de um mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 43.

GONÇALVES, Delmar Maia. Náufrago africano. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 17.

GONÇALVES, Delmar Maia. O berço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 76.

GONÇALVES, Delmar Maia. O enigma. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 71.

GONÇALVES, Delmar Maia. O inevitável. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 26.

GONÇALVES, Delmar Maia. O mestiço. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 47.

GONÇALVES, Delmar Maia. Singularidade africana. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 83.

GONÇALVES, Delmar Maia. Zé pecado e o dueto preto e branco. In: ______. Mestiço de corpo inteiro. Lisboa: Editorial Minerva, 2006. p. 55.