segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Uma interpretação do livro “Fuzilaram a Utopia” de Delmar Maia Gonçalves



Para compreender “Fuzilaram a Utopia” de Delmar Maia Gonçalves, será necessário relacionar o título com alguns aspectos implicados nos poemas, que considero serem importantes. Para esse efeito, vou começar por trazer à luz a definição de Utopia que interessa para leitura deste livro. Posteriormente, irei falar sobre o que move e demove a utopia, neste autor, e o caminho que faz até à conclusão contida no título.

Utopia é o arquétipo de uma civilização ideal, que tem por base a esperança e o desejo de transformação de uma sociedade em declínio. Para Delmar é um lugar onde “O sol voltará a brilhar,/ Sereno sobre o vesúvio humano/ Gaivotas pairarão, brancas,/ doidas de azul/ e os marinheiros regressarão/ cantando alegres melodias do futuro/ navegando sobre o verde oceano da vida”.

No entanto, a crença numa Utopia é constantemente posta em causa. Há um poema, por exemplo, em que ele afirma “gosto muito de ser (…) livre como os pássaros/ mas não muito/ Utopista/ mas não muito”. Dá a ideia de que ele tenta direccionar o leitor para ideais de liberdade e utopia, mas, logo a seguir, deflaciona-os ao dizer “mas não muito”, ou seja, quando parece que vai afirmar uma crença em algo, esta é logo refreada, com a introdução de uma oração adversativa. Além disso, qualquer intenção de esperança que se possa encontrar em algum poema terá sido eliminada, logo à partida, pelo próprio título, enquanto primeiro argumento. O que parece dar a poemas como “A esperança é uma bússola sem dono” uma certa estranheza. Eu entendo este poema como uma tradução do arquétipo da utopia, contudo, conforme citei antes, a crença na “esperança” terá sido eliminada, primeiro pelo título da capa, considerando que se a utopia foi fuzilada, terá deixado de existir definitivamente, o que anula qualquer hipótese de esperança; e depois por uma citação que antecede o poema em que ele afirma “Não é a elevada crocitação do Corvo que lhe eleva a razão”. Entendo que aqui pretende afirmar que não é por falar em mundos ideais ou esperança que acredita neles. Creio, deste modo, que isto poderá estar relacionado com a descrença num mundo que parece autoconsumir-se, um mundo em que as pessoas parecem caminhar passivamente para a morte e os predadores, quando caem, são substituídos por outros predadores ainda mais cruéis. O poema “Hipocrisia da inacção”, por exemplo, dá-nos um quadro muito representativo deste mundo em decadência, onde “engolimos o veneno/ do nosso silêncio” e “tranquilamente/ avançamos para a morte!”. Por isso, é que ele parece já não acreditar que haja lugar para a esperança: o mundo não só não quer ser curado dos seus problemas, como também se autoaniquila continuamente.

Existe também uma distinção mais ou menos clara entre aquilo que ele entende por um mundo em que tudo é possível e um mundo em que há limites, sendo que no primeiro consegue “saltar todos/ os degraus do tempo, abraçá-los” e no segundo “as chuvas/ são lágrimas de dor/ que no limite/ o mundo liberta”. Mais uma vez, o aparente entusiasmo é contido, mas, desta vez, por algo que está relacionado com o mundo real, ou seja, enquanto descreve um mundo em que é possível “saltar (…) os degraus do tempo”, no final do poema recorda-nos que “as chuvas do mundo”, afinal, são “lágrimas de dor”. A sua versão de um mundo perfeito terá sido, aparentemente, substituída por uma mais degradada no mundo real. Esta distinção está, em primeiro lugar, assente numa dicotomia entre um lugar em que tudo é ilimitado e um lugar em que tudo é limitado. Esses limites são impostos, neste poema, pelas “Nuvens” que são o “grande e seguro tecto do mundo” e são estes limites que impedem a Utopia de se manifestar na sua totalidade, dentro e fora da mente do poeta. Por esse motivo, o seu arquétipo de uma sociedade ideal terá entrado em vertiginoso declínio ao consciencializar-se da impossibilidade da sua manifestação no real.

A estrutura formal da sua poesia está também em consonância com o seu pensamento, rompendo com os padrões esteticamente normativos, não respeitando métrica, rima ou ritmo, se bem que, em alguns poemas ainda permanecem sons dos batuques, num ritmo cardíaco lento, quase fúnebre, alinhados com uma semântica agressiva, crua e profundamente irónica - que aborda quase invariavelmente temas relacionados com morte, guerra e exploração dos mais fracos -, consistente também com uma grande revolta relativamente ao estado de coisas no mundo; revolta essa que “fuzila” a esperança e, consequentemente, a utopia.

Como já dizia Thomas More Ao receber um mal os homens costumam anotá-lo em mármore. Se é um bem que recebem, escrevem-no no pó.” Uma utopia só poderá se realizar se todas as pessoas envolvidas estiverem de acordo com ela. Enquanto houver pessoas passivas e pessoas predatórias não será possível realizar materialmente a utopia civilizacional deste autor. Desta forma, nada mais parece restar, senão apenas a possibilidade de reconstituir infinitamente a utopia, ainda que sem esperança, a partir de imagens dispersas em fragmentos, que se alinham como uma constelação de estrelas, num imaginário que a assimetria dos versos concretiza. É por esse motivo que, na minha opinião, o Delmar faz parte de uma linhagem de poetas interpretadores de arquétipos, que precisam de esculpir esses mundos supremos, mesmo quando já não há esperança, como forma de fuga ao real, equilibrando, desta forma, a “dor do mundo” com o sublime surreal.



 (Vera Novo Fornelos)
16 de Dezembro de 2016
 Texto de apresentação do livro Fuzilaram a Utopia na Associação 25 de Abril

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